Post-truth: relacionado a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes do que apelar à emoção ou às crenças pessoais para formar a opinião pública. (Tradução minha da palavra do ano 2016 segundo Oxford Dictionaries)
¿Foram os discos voadores as primeiras pósverdades do século XX? Talvez não, porque Kenneth Arnold disse ter visto os nove objetos voando próximos dele aquele dia de 1947, embora não conseguiu os identificar, dali o nome de Objeto Voador não Identificado (OVNI). Mas, é uma pósverdade sim vincular a Área 51 com experiências extraterrestres.
Minha estreia com as pósverdades foi a farsa do homem na Lua, meu tio avô desconfiava em 1969 dos ianquis e suspeitava que tudo era uma invenção de Hollywood. Na minha ingenuidade infantil pensava que ele era único no mundo em sua descrença. Por isso minha surpressa foi imensa, muitos anos dépois, ao descobrir o tamanho da comunidade negadora da aventura lunar, aínda mais ao perceber que seu bastião está nos EUA, país que fez o esforço econômico e humano de enviar homens na Lua.
O tempo não fez mais do que aumentar as pósverdades. O atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono, o famoso 9/11, criou uma espécie de competência de quem lançava a teoria mais absurda sobre o que aconteceu naquela manhã interminável. Já tínhamos sofrido a passagem do milênio, e poucos anos depois nos deparamos aínda com as Profecias Maias que nunca aconteceram, por certo.
Escrevo sobre falácias pseudocientíficas há mais de 30 anos. Na minha ingenuidade adolescente dos inícios neste campo, pensava que poderia ajudar aportando mais uma voz a um grupo de empreendedores que contou com os insignes nomes de Carl Sagan e Martin Gardner. Pensei também que a informação era o melhor remédio para convencer incrédulos, e por esse motivo o acesso universal a Internet seria o caminho natural para acabar con as falácias. E, no entanto, nos encontramos frente a un fenômeno que, ao que tudo indica, deixou de ser intranscendente e pode até definir eleições presidenciais.
Eu acho que esta história de falácias-verdadeiras começou há mais de um século e tem um nome: Charles Hoy Fort. No livro "Fad and fallacies in the name of science" (1957) Martin Gardner relata as disparatadas ideias que os forteans têm defendido desde as primeiras publicações de seu criativo líder. Fort recolheu inúmeras histórias que leu em jornais e revistas no British Museum em Londres, e na Biblioteca Pública de Nova York. Embora carecia de estudos acadêmicos, ou talvez por essa razão, dedicou sua vida a pesquisar eventos anômalos pouco considerados pelos científicos profissionais. Pôde se dar ao luxo de ser um diletante científico graças a uma herança familiar que o liberou da obrigação diária do trabalho. E dois amigos, que pouco entendiam de ciência e muito o admiravam, conseguiram que seus livros fossem publicados. O primeiro e mais famoso é o "Livro dos Condenados" , onde por condenado Fort se refere àqueles que se deixam convencer pela ciência que fazem os científicos profissionais, o que se dá em chamar em inglés de "mainstream science". Ciência que Fort chamava de dogmática. Ele tinha particular aversão pelos astrônomos, a quem considerava de ineptos (stumblebums, en suas palavras), menos idôneos mesmo que os astrólogos para fazer predições, como, por exemplo, encontrar um planeta novo através de cálculos perturbativos. Segundo Fort, a Terra não gira em torno ao seu eixo diariamente, pelo contrário, uma esfera oca com pequenos orifícios gira em torno da Terra, por trás da esfera, uma luz permanente cria a ilusão da existência de estrelas. A esfera é de um material gelatinoso, e, as vezes, esse material é arrancado e cai sobre a superfície terrestre. Fort juntou notícias que davam conta da chuva de gelatina celeste e por isso recomendava muito cuidado aos aviadores. Nos quatro livros que publicou em vida, e nas edições da revista Doubt que por muitos anos publicou a Sociedade Fortean, um catálogo gigantesco de maravilhas incríveis (literalmente) como esta, pode ser encontrado.
¿Era Fort um ignorante autoconvencido de sua genialidade? ¿Era um semvergonha que lucrava com a ingenuidade alheia? Alguns biógrafos acreditam que nem um nem outro, Fort era um personagem que o Fort real criou para semear de dúvidas a humanidade, pelo único prazer de vê-la confusa, ou, pelo menos, para mostrar que a certeza absoluta é impossível. Sendo a Mecânica Celeste o ramo da astronomia mais desenvolvida em tempos de Fort, cujo objetivo é descrever a posição dos astros com a máxima precisão possível, era a presa mais apreciada de suas críticas. Uma certa vez Fort disse: "Não creio em nada próprio que eu tenha escrito alguma vez." Um de seus mais próximos amigos, que o alentou a publicar seus livros, que participou da criação da Sociedade Fortean e que foi editor da revista Doubt, disse "Fort não era um louco. De forma alguma ele cria minimamente em nenhuma de suas hipóteses."
¿Serão também assim os forteans contemporâneos que de forma indiscriminada publicam fábulas irreais, contando fenômenos que nunca aconteceram, negando outros cuja existência não deveria nem sequer ser questionada ou dando explicações inverosímeis para questões corriqueiras? ¿Dedicam seu tempo livre à ficção jornalística apenas para rir da ciência dogmática? ¿São maníacos? ¿Ou, simplesmente, desiludidos?
O problema é que nos anos de 1920, quando Charles Fort começou a publicar suas disparatadas teorias, seu impacto em escala global era insignificante. Hoje, a conectividade permite que as ideias se transmitam, literalmente, a velocidade da luz, entre duas antípodas do planeta. E o privilégio de se deslocar sobre a superfície da Terra, seja a pessoa, sejam suas ideias, que em épocas de Fort era para alguns poucos, hoje é um direito universal. Parafrasando a ilustração da teoria do Caos: Um twit em Brasil pode resultar no crack da bolsa de Nova York.
Enquanto escrevia este artigo, que levou mais tempo que o desejado, outro neologismo irrompeu na mídia: fake-news. Difícil discernir o qué o diferencia do post-truth. Certo é que ambos são igualmente nocivos no mundo hiperconectado onde a maioria aceita docilmente qualquer afirmação que confirme seus prejuízos.
Não me cabe dúvida alguma, Charles Fort continua a rir de todos nós.
domingo, 31 de diciembre de 2017
miércoles, 27 de agosto de 2014
Lucy e o mito do 10%
O ator Morgan Freeman, no papel de um neurocientista palestrando num local erudito, olha para a sua plateia e diz muito seriamente, "É fascinante saber que o ser humano usa apenas o 10% de seu cérebro". Isto acontece no trailer do filme, estrelado por Scarlett Johanson, Lucy. Um pouco depois, no mesmo trailer alguém pergunta a M. Freeman, o que aconteceria se pudéssemos usar o 100% do cérebro: "Não faço a menor ideia" responde o cientista, enquanto as imágens mostram os poderes incríveis que Lucy-Johanson parece ter obtido por causa de umas drogas que lhe foram administradas. O filme teve estreia há algumas semanas nos EUA, mas só em setembro no Brasil. Evidentemente não pude vê-lo, então só posso falar pelas poucas cenas do trailer. E me chama a atençao o retorno ao mito do 10%.
Há mais de 10 anos escrevi um artigo sobre o tema que foi publicado na Revista Exactamente (Nro 24, Outubro 2002). Como vejo que não perdeu atualidade, transcrevo-o, quase na íntegra, abaixo.
Supermentes devaluadas: o mito do 10%
Corria a década de 1970, quando pela primeira vez escutei a teoria de que nosso cérebro está subutilizado. "Usamos um 10% de nossa capacidade. Einstein chegou a usar apenas o 20%!" A afirmação, mais do que verossímil era profética, augurando um porvenir feliz. Talvez poderiamos encontrar a forma de utilizar o 90% restante e nos elevarmos assim até uma estatura 5 vezes superior à de Einstein. Talvez poderiamos, como o célebre Fernão Capelo Gaivota de R. Bach, um dos estandartes da divulgação do mito das Supermentes, nos deslocarmos instantaneamente ou atravessar a dura rocha dos rochedos. Não demoraram em aparecer livros de autoajuda com técnicas para aumentar esse porcentual. O pontapé inicial parece ter sido dado pelo best-seller, hoje fora de impressão, Powers of Mind (A. Smith, Ed. Random House, N.Y., 1975). O livro explora todas as técnicas para aumentar a porcentagem de uso de nossa mente, desde a meditação Zen, até o I-Ching, passando pela pretensiosa Meditação Transcendental; e nos conta inúmeras histórias de pessoas que curaram doenças incuráveis, ou adquiriram poderes sobrenaturais, da noite para o dia, apenas porque aprenderam a usar sua mente com maior eficiência.
Quándo começou esta mania? É difícil de precisar, como em toda lenda. A ideia de que nossa mente é capaz de dominar a matéria, subjacente no mito das Supermentes, é muito antiga, centenas de anos como mínimo (de alguma forma era uma hipótese dos alquimistas). Mais recentemente alguns referem a Einstein quem em alguma entrevista teria falado em forma imprecisa que ele utilizava 20% de sua capacidade mental. Creio adivinhar que não estava falando seriamente. O famoso Dale Carnegie, parece que também comentou alguma vez este mito, embora suas fontes saõ desconhecidas.
Quándo começou esta mania? É difícil de precisar, como em toda lenda. A ideia de que nossa mente é capaz de dominar a matéria, subjacente no mito das Supermentes, é muito antiga, centenas de anos como mínimo (de alguma forma era uma hipótese dos alquimistas). Mais recentemente alguns referem a Einstein quem em alguma entrevista teria falado em forma imprecisa que ele utilizava 20% de sua capacidade mental. Creio adivinhar que não estava falando seriamente. O famoso Dale Carnegie, parece que também comentou alguma vez este mito, embora suas fontes saõ desconhecidas.
Os antecedentes mais firmes, parecem provenir de experiências que na realidade demonstram lo contrário. Na década de 1920, Karl Lashley intentou localizar as lembranças. Treinou ratos de laboratório para lembrar o caminho de escape de um labirinto, e depois foi retirando diferentes partes do cortex cerebral. Lashley informa que em alguns casos até con 90% da massa perdida o rato podia lembrar o caminho. No entanto, nos mesmos trabalhos, ele escreve que esses ratos perdem performance ao mesmo tempo.
A partir da década de 1960, foram realizados experimentos com pessoas para observar a área do cérebro usada durante diferentes atividades. Os resultados mostram que normalmente uma área pequena é utilizada para uma atividade determinada. O que é bastante lógico, porque existe um certo gráu de especialização funcional no cérebro, e costumamos realizar uma tarefa por vez. Por exemplo, neste momento estou movendo apenas os músculos dos meus dedos enquanto escrevo, e mais alguns dos braços. O resto de minha massa muscular encontra-se relaxada. Isso não significa que só um 10% dos meus músculos têm alguma finalidade. Ao longo de um dia completo, muito provavelmente terei utilizado cada um deles em diferentes momentos. O mesmo acontece com o cérebro.
Alguns pacentes de hidrocefalia têm o cérebro bastante comprimido e a pesar disso, são normais. Um exemplo extremo foi dado pelo pediatra britânico John Lorber: um brilhante estudante de matemática cuja substânica cinzenta tinha uma espessura de apenas 1 mm, quando o normal são 45 mm. Aliás, pessoas com danos cerebrais conseguem recuperar funções inicalmente perdidas.
Mal interpretados estes resultados levam a crer que grande parte do cérebro é ociosa. Muito pelo contrário, o que demostram é que o cérebro tem uma incrível capacidade para assumir funções de outras áreas, e que a memória não tem, provavelmente, um lugar específico, estendendo-se pelo volume todo. Por outra parte, se aceptamos como verdadeira a teoria da evolução darwinista, é muito difícil explicar por qué um órgão desenvolveu-se de forma muito avançada sem ser completamente utilizado. A natureza costuma ser muito avara, dá e obtem apenas o necessário.
Obviamente que sempre pode-se fazer hipóteses a posteriori, argumentando que fomo alterados genéticamente no passado, ou que já existiu uma raça de homens mais inteligentes que a atual, uma catástrofe acabou con ela e os sobreviventes esqueceram a maior parte de seus conhecimentos. Está claro que nenhuma destas ideias têm qualquer basamento com a evidência empírica, como sim tem a teoria da evolução.
Isto não é tudo. Suponhamos que efetivamente usamos um 10% de nossa capacidade cerebral, se conseguíssemos utilizar o 90% restante, quais habilidades novas ganhariamos? Imagino que falariamos mais idiomas, fariamos cálculos matemáticos mais complexos, executariamos mais de um instrumento musical, etc. e mais outros etc. Para os fanáticos da lenda da Supermente, isto não é suficiente. Eles imaginam habilidades paranormais: telepatia, visão remota, por exemplo. Adquirido aquele estado superior teriamos poder de dominação absoluto sobre a matéria. E por último ganhariamos o domínio sobre o tempo. Em suma, onipotência e imortalidade. Estas extrapolações da realidade não têm o menor apoio e mais bem parecem projeções dos desejos íntimos dos seus autores.
A verdade é que usamos nosso cérebro em quase toda sua capacidade (sempre podemos aumentá-la um pouco com mais exercitação). Depois de muito entrenamento podemos especializá-lo em algunas tarefas, como tocar um instrumento, jogar xadrez, aprender uma lingua estrangeira, ou simplesmente nos capacitarmos numa profissão. Isto já é maravilhosso, nenhum outro animal da Terra demonstrou tanta capacidade de autoconhecimento, aprendizagem e criação. Nosso cérebro é nossa marca distintiva no reino dos seres vivos. Não o devaluamos por dizer que o usamos em sua totalidade. Não é necessário crer em mágicas habilidades obtidas por meio de duvidosas técnicas para conhecer nossas esperanças e medos, nossas limitações e realizações. Em suma para saber qual é o nosso lugar no Universo.
viernes, 17 de enero de 2014
Voltando para a Lua
A farsa da viagem lunar não tem fim. Quarenta e cinco anos após a chegada do homem à Lua, a controversia se alastra, parece até aumentar. Neil Armstrong não pode descansar em paz, perseguido pela acusação de ter fraudado a Humanidade inteira quando disse "um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade". E os outros 11 astronautas que andaram sobre o solo lunar, não conseguem desfrutar sua popularidade por causa de um infundado mito que afirma que as missões Apollo foram uma grande montagem de Hollywood aliado à NASA (tem quem afirma que Stanley Kubrick estava atrás das câmeras) para nos fazer acreditar que os americanos pousaram na Lua.
Muitos comentários eram extensos e elaborados, tanto a favor quanto em contra da veracidade da história oficial. Em geral podemos classificá-los em quatro tipos diferentes:
- Persuadidos: Aqueles que estão, sem sombra de dúvida, convencidos da chegada do homem à Lua.
- Céticos: Aqueles que estão, sem sombra de dúvida, convencidos da fraude lunar.
- Dubitativos: Aqueles que duvidam da história mas também não engolem os argumentos dos céticos.
- Neutros: Aqueles que emitiram comentários que não podem ser colocados em nenhum dos grupos anteriores.
O grupo dos dubitativos deve ser incorporado ao dos céticos: não acho razões para questionar a realidade das viagens humanas para a Lua, é um fato histórico fartamente documentado. Juntando então em três categórias resulta
| Persuadidos | 88 | 47,1 % |
| Céticos | 72 | 38,5 % |
| Neutros | 27 | 14,4 % |
Embora o número dos persuadidos é superior, resulta incrivelmente alto o número dos céticos. Descontando os neutros o resultado da: 55% de persuadidos para 45% de céticos. É uma porcentagem muito grande para um evento histórico comparável com as expedições aos polos geográficos no início do século XX (R. Amundsen, R. Scott), a travessia por baixo do Ártico em submarino nuclear (1958), ou a descida a mais de 10.000 m no fundo do mar em 1960. É mais preocupante se lembramos que os leitores da Folha de São Paulo são pessoas com ensino médio concluido, a maioria deve ter um diploma universitário, lê e se informa. Seria muito fácil chamá-los de ignorantes. Mas estaria errado.
Como pôde o maior sucesso da tecnologia recente virar um mico? Lendo os comentários céticos, a maior fonte de suspeita é a conclusão das viagens. Por que não retornamos nunca mais? Involuiu a tecnologia? - se perguntam. Se o computador mais poderoso dos anos 70, que precisava de uma sala imensa para ser alojado, cabe hoje dentro de um aparelho do tamanho de uma caixa de fósforos, como pode ser que a tecnologia espacial não evoluisse na mesma proporção? afirmam irritados achando que esta é a maior demonstração que tudo foi uma história da carochinha.
Pois é. A tecnologia aeroespacial evoluiu muito menos que a dos computadores. Não são apenas os foguetes que continuam a ser caros e pouco seguros, os aviões também avançaram muito pouco nos últimos 40 anos. Traçando uma breve história da aviação temos: pimeiro vôo do mais pesado que o ar, 1906, aviação comercial, 1920, aviões a jato comerciais, 1960. De lá pra cá, pouca novidade. O esperado Concorde, o avião mais rápido que o som, foi um rotundo fracasso comercial. Cadê o jato estratosférico que iria fazer a travessia São Paulo - Tókio em 3 horas?
O programa Apollo mostrou que a viagem tripulada à Lua é possível, mas custou 25 Bilhões de dólares ao estado norte-americano. Quando foi encerrado em 1975, a ideia era construir uma estação espacial, um porto fora da superfície para facilitar as viagens, e um transbordador que permitisse ir e vir até o espaçoporto em órbita. O transbordador espacial, oficialmente lançado em 1981, se mostrou caro e pouco seguro, e foi abandonado em 2011. A NASA ainda não definiu o novo sistema de lançamento. Enquanto isso, os astronautas sobem e descem usando as naves russas Soyuz, cujo design tem mais de 50 anos!
Hoje em dia, realizar o programa Apollo novamente teria um custo de 170 Bilhões de dólares. O retorno econômico deste investimento não é claro. Por isso mesmo se espera muito da iniciativa privada e da capacidade de inovação da indústria. Provavelmente a exploração da Lua, seja lucrativa quando dominemos melhor a tecnologia da viagem espacial. Até lá, os céticos acharão motivos para contestar a história.
Domingo 26 de janeiro. Se minha teoria está certa, os más céticos deveriam ser os mais jovens. No fim das contas, nós, que vivemos aquelas jornadas épicas dos anos 1970, temos uma percepção mais forte de sua realidade.
Segunda feira 27 de janeiro. É interessante como algumas histórias são mais aceitas que outras. No mundo anglosaxão credita-se o primeiro voo de um objeto mais pesado que o ar (avião) aos irmãos Wilbur e Orville Wright, que teria acontecido em 17 de dezembro de 1903, em Kitty Hawk, Carolina do Norte. Não há testemunha nenhuma do evento, apenas as memórias escritas dos irmãos inventores. Enquanto isso, a maioria esqueceu o trabalho documentado e testemunhado por uma multidão, de Alberto Santos-Dumont, que percorreu triunfalmente o Campo de Bagatelle (Paris) en seu 14-Bis em 23 de outubro de 1906.
Segunda feira 27 de janeiro. É interessante como algumas histórias são mais aceitas que outras. No mundo anglosaxão credita-se o primeiro voo de um objeto mais pesado que o ar (avião) aos irmãos Wilbur e Orville Wright, que teria acontecido em 17 de dezembro de 1903, em Kitty Hawk, Carolina do Norte. Não há testemunha nenhuma do evento, apenas as memórias escritas dos irmãos inventores. Enquanto isso, a maioria esqueceu o trabalho documentado e testemunhado por uma multidão, de Alberto Santos-Dumont, que percorreu triunfalmente o Campo de Bagatelle (Paris) en seu 14-Bis em 23 de outubro de 1906.
miércoles, 15 de enero de 2014
O Senhor é astrônomo? Eu sou de Capricórnio!
Segundo o Evangelho de Mateus uns magos vieram do Oriente a Jerusalem e disseram: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo. A tradição popular diz, entre tanto, que eram três Reis Magos: Melchior, Gaspar e Baltazar. Do texto de Mateus depreendem-se três conclusões e um lema, a seguir: (1) que não (necessariamente) eram reis, (2) que seu número é indefinido, (3) que há uma contradição porque vindo do Oriente uma estrela que está no Oriente não pode conduzi-los ao Ocidente, para Belém; e o Lema: que os Evangelhos são os livros mais vendidos e provavelmente os menos lidos.
Uma linha intepretativa diz que os magos eram sábios do Oriente (a Biblia Sagrada da Sociedade Bíblica do Brasil os chama de homens que estudavam as estrelas, Mateus 2:1) e como naquela época não havia saber maior que a Astrologia, eram astrólogos vindos da Pérsia. Achar um evento astronômico que corresponda com a estrela de Belém que guiou os magos do Oriente, foi de encontro com a inoportuna obstinação da evidência científica. Nossa ignorância sobre a vida de Cristo, no entanto, aumenta as chances de encontrar a Estrela Guia, já que segundo o evangelista Mateus, nasceu em tempos do tretarca Herodes, falecido em 4 antes de Cristo. Toda uma contradição morrer antes que aquele a quem iria sentenciar de morte! Mas essa incerteza permite estender a busca no passado.
Foi talvez Johannes Kepler, um dos maiores astrônomos da história, quem mais próximo esteve de encontrar um evento digno do nascimento do Filho de Deus: a muito pouco freqüênte conjunção de Júpiter com Saturno na constelação de Peixes, constelação símbolo da cristandade, no ano de 7 AC (voltaram a se encontrar no ano seguinte também). Embora a conjunção pouco teve a ver com uma estrela porque os dois planetas maiores do Sistema Solar estavam próximos mas de forma alguma superpostos num único corpo. Foram propostas também estrelas novas, alguns cometas, outras conjunções, como a de Júpiter com a estrela Régulus (Pequeno Rei) na constelação do Leão. Nenhuma destas alternativas deixou conformados a todos. Em qualquer caso, é muito chamativo que apenas os magos do oriente perceberam a existência da estrella de Belém: no há registros históricos de um fenômeno ao mesmo tempo impactante, mas que, segundo o próprio evangelista, nem mesmo Herodes teria notado. Não seria melhor considerá-la uma retórica simbólica?
Da mesma forma que os astrólogos magos não sabem qué foi a estrela de Belém, tampouco nunca confirmaram nenhuma de suas outras afirmações. É confuso então que Vicente Massot escreva em La Nación de 3 de janeiro de 2014 (link para a nota), que a Astrologia iria pôr as bases da moderna astronomia. Sejamos mais precisos. Uma disciplina nascida entre os rios Tigre e Eufrates em torno do ano 2000 AC, evoluiu em duas direções diferentes: a do pensamento rigoroso e verificável que chamamos Astronomia e a do tratamento simbólico e místico que chamamos Astrologia. Apesar do afirmado, o afastamento (estranhamento?) da Astrologia com a objetividade começou já em tempos da Grécia Clássica: seus filósofos naturais descobriram que o caminho do Sol no céu ia mudando lentamente (hoje atribuimos este fenômeno à precessão do eixo da Terra), e assim os signos do Zodiaco já não se correspondiam mais com aqueles definidos dois mil anos antes. Com o passar dos séculos, as contradições aumentaram. Por exemplo: De qual forma incorpora a Astrología os astros descobertos recentemente? A quais? Plutão, ainda usado nas Cartas Astrais, foi reclassificado recentemente como planeta menor, mais um dos milhares que abundam no Sistema Solar. Seria para levar em conta todos os outros também? E as galáxias, não deveriam ser incluidas nas Cartas Astrais?Qual é a influência do Buraco Negro no Centro Galático? E as estrelas pulsares? De que forma afeta nossa Carta Astral a expansão do Universo?
Reflexionaram os astrólogos alguma vez sobre estas questões? Duvido. Não há na sua história nenhuma inovação relevante: continua a ser o mesmo olhar surpreso e curioso dos homens que davam seus primeros passos na civilização, quase 4000 anos atrás. Enquanto isso, a Astronomia descobriu planetas, estrelas, galáxias, nuvens de gás, uma paisagem apaixonante e completamente nova, insuspeita pelos magos do oriente. Também descifrou a matemática íntima do movimento planetário: a Lei da Gravidade. Compreendeu a forma em que a luz das estrelas propaga-se no vácuo chegando até nós, e descobriu outras formas de luz que nossos olhos não detectam. Ousou, medrosamente, tirar o centro do Universo do Centro da Terra e pensar que também as estrelas nascen e morrem, que não são estáticas como afirmavam os astrólogos. E, num movimento que acreditou aproximá-lo daquele Déus dos magos, o astrônomo convertido em astronauta, caminhou sem proteção, literalmente caindo, fora da base sólida da superfície terrestre.
Os astrólogos, apesar de negar qualquer interesse por uma confirmação independente, entusiasmaram-se quando Michel Gauquelin na década de 1950 publicou um estudo estatístico sobre o momento do nascimento de esportistas famosos e a posição do planeta Marte no céu: o efeito Marte como foi batizado, nunca confirmado por outros pesquisadores, seria, no entanto, uma demonstração de que o método astrológico está enganado. Ô contradição!
O certo é que, embora nascidos no mesmo berço, nada deve a Astronomia à Astrologia. Apenas nos deixar sem graça quando alguém nos pergunta a profissão: O Senhor é astrônomo? Qué interessante! Eu sou de Capricórnio.
martes, 5 de marzo de 2013
O mundo e seus demônios
"Quando a ignorância é felicidade, é loucura ser sábio."
(Thomas Gray)
Escrevo estas linhas mais de dois meses depois da fatídica data de 21 de dezembro de 2012. Nenhuma das graves profecias anunciadas aconteceu de fato. O mundo segue seu caminho tortuoso e esperançoso, como sempre foi ao longo de sua história. Guerra civil na Síria com milhares de mortos e centenas de milhares de refugiados, mais a destrução de uma nação. A crise econômica europeia se alastra mais um ano. Enquanto na América Latina vivemos uma das décadas mais fantásticas de nossa história: sem importar o modelo econômico e político, todos os países da região cresceram e estabilizaram políticamente. Muito longe das sombrias décadas das ditaduras dos anos 60 e 70s.
A frase que abre este post foi tomada do primeiro capítulo do livro de Carl Sagan: O Mundo assombrado por seus Demônios. O título do post também faz referência ao título do livro. O livro caiu nas minhas mãos uns dias atrás, embora o conheço desde que foi publicado, pouco antes da morte do genial astrônomo e divulgador científico, criador da série para TV, Cosmos. O mundo assombrado por seu demônios foi publicado em 1995, e Sagan faleceu em 20 de dezembro de 1996. A leitura do livro me passa a impressão de estar impregnado de uma sorte de pessimismo de alguém próximo da morte. Mas não estou seguro disto.
Com exceção de alguns capítulos postados na Internet, não li o livro antes. O primeiro capítulo me impressionou porque encontrei nas palavras dele minhas palavras. Que tipo de plágio involuntario pude ter feito? Cómo pude chegar nas mesmas conclusões sem tê-lo lido nunca? A coisa mais preciosa se chama o primeiro capítulo e nele expõe a modo de introdução sua fê na ciência. Uso a palavra fê de propósito, porque efetivamente, em última instância, tem algo de espiritual atrás de cada cientista. E aí Sagan me leva indagar a origem da palavra espírito: em latim spiritus indicava o álito, a respiração. Talvez porque é invisível e provem de nosso interior, os romanos o relacionaram com o mais subjetivo do ser humano. Então, o espiritual está ligado ao material desde a mesma origem da palavra que lhe deu existência.
A pergunta que norteia o livro de Sagan é por qué tantas pessoas são levadas por um relato fantástico da realidade que não tem nenhum fundamento? Essa foi também a pergunta que me fiz uns anos atrás, que estendi a: por qué tantas pessoas se desanimam pensando que nosso mundo está assombrado? Essa preocupação me levou a escrever um livro: 2012: A Hora Última. Sagan cita a Edmund Way Teale que diz:
Moralmente é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não, desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão.
Aquele que, questionado de que uma pseudo-terapia não tem base científica alguma, responde que o importante é que é efetiva para curar, está cometendo a conduta moralmente condenável da que fala Teale. Diz Sagan:
É desanimador descobrir a corrupção e a incompetência governamentais, por exemplo, mas será melhor não saber a respeito? A que interesses a ignorância serve? Se nós, humanos, temos uma propensão hereditária a odiar os estranhos, o único antídoto não é o autoconhecimento? Se ansiamos por acreditar que as estrelas se levantam e se põem para nós, que somos a razão da existência do Universo, a ciência nos presta um desserviço esvaziando nossa presunção?
Descobrir que o Universo tem cerca de 8 a 15 bilhões de anos, em vez de 6 a 12 mil, aumenta a nossa apreciação de sua estensão e grandiosidade; nutrir a noção de que somos uma combinação especialmente complexa de átomos, em vez de um sopro de divindade, pelo menos intensifica o nosso respeito pelos átomos; descobrir como agora parece provável, que o nosso planeta é um dentre bilhões de outros mundos na Vía Láctea, e que nossa galáxia é uma dentre bilhões de outras, expande majestuosamente a arena do qué é possível; saber que os nossos antepassados eram também os ancestrais dos macacos nos une ao restante da vida e torna possíveis reflexões importantes - ainda que por vezes tristes - sobre a natureza humana.
Evidentemente,não há retorno possível. Querendo ou não, estamos presos à ciência. O melhor é tirar o máximo proveito da situação. Quando chegarmos a compreende-la e reconhecermos plenamente a sua beleza e o seu poder, veremos que, tanto nas questões espirituais quanto nas práticas, fizemos um negócio muito vantajoso para nós.
O mais importante da ciência, no entanto, não são seus descobrimentos, sempre sujeitos à alterações em razão de outros novos, mas o método, o caminho que nos conduz, as vezes tateando e a cegas, as vezes em círculos, mas que é sempre conseqüênte consigo mesmo e obediente com a Natureza, fim e objeto dos seus desvelos. Em palavras de Sagan:
É um desafio supremo para o divulgador da ciência deixar bem clara a história real e tortuosa das grandes descobertas, bem como os equívocos e, por vezes, a recusa obstinada de seus profissionais a tomar outro caminho. Muitos textos escolares, talvez a maioria dos livros didáticos científicos, são levianos nesse ponto. É muitíssimo mais fácil apresentar de modo atraente a sabedoria destilada durante séculos de interrogação paciente e coletiva da Natureza do que detalhar o confuso mecanismo da destilação. O método da ciência, por mais enfadonho e ranzinza que pareça, é muito mais importante do que as descobertas dela.
Sagan morreu antes que as profecias milenaristas se propagaram mundialmente, embora as intuia. Seu livro foi escrito com o intuito de diminuir o desvelo de tantas pessoas aterrorizadas, assombradas, por falsas afirmações. A pouco mais de 15 anos de sua morte, depois de ter pressenciado os falsos apocalípses de 2000 e 2012, parece que sua palavra foi em vão. A ciência se mostra longe dos leigos que antigamente temiam os mostros marinhos e os vértices de uma Terra plana, e hoje se espantam com catástrofes impossíveis: continentes deslizando como gigantescos Titanics, o campo geomagnético enlouquecido alterando a psíque das pessoas, raios mortíferos provenientes do Centro Galático, e gigantescas labaredas solares a incinerar toda a vida na superfécie terrestre.
Mas, quem sabe, nem todo está perdido. O mundo assombrado pelos demônios tem um subtítulo na versão inglesa: a ciência vista como uma vela no escuro. Enquanto essa vela continue acessa, há esperança.
sábado, 15 de diciembre de 2012
21 de dezembro de 2012: a uma semana do fim
E aqui estamos nós. A menos de uma semana de uma magna data. Aquela marcada para ser o Fim do Mundo. Um novo Fim. Em diferentes sítios de Internet, relógios mostram quantos dias, horas, minutos e segundos faltam para a hora H, como este sítio oficial do 21 de dezembro de 2012, onde também podem ver um vídeo do entediante anúncio do guia de sobreviventes para os meses de desastres que estão por vir.
Neste momento, enquanto escrevo estas linhas, restam apenas 5 dias e 14 horas.
Como já comentei no sítio dedicado às profecias de 2012: A Hora Última, desde que tomei contato com esta teoria fiquei fascinado. Fascinado por sua propagação mundial. Por qué este Apocalipse tem mais chegada que outros anteriores? É porque tem a ver com os maias, povo extinto? Hollywood nos entregou, com seu filme 2012, uma descrição luxuosa em detalhes, barroca no estilo e absurda nos conteúdos do que irá nos acontecer em... menos de 7 dias. Supostos meios de divulgação científica, como o Discovery Channel, aportaram sua dose de confusão criando documentários extravagantes e sesgados, longe dos afazeres e as preocupações dos cientistas de carne e osso que cada dia se desdobram para arrancar da austera natureza uma mínima amostra de conhecimento. Também a TV local fez seu aporte. As mesas das livrarias inundaram-se de textos vários que contam de formas diferentes o signficado profundo desta época. Todos eles dizem que haverá sinais externas, fenômenos que objetivamente todos poderemos observar, que nos indicarão o fim das épocas.
E eu, declarado atéu dos Apocalipses, dediquei tempo e esforço para desmontar esta intriga criada por autores norte-americanos, que uns 30 anos atrás encontraram fracos argumentos a favor de uma teoria desmesurada. Foquei nos sinais, os fenômenos objetivos. Tanto nas páginas do sítio Web que criei especialemente, como neste blog mais dinâmico, analisei àqueles que parecem mais significativos. Meu veredicto é que no há motivo nenhum de preocupação.
Recapitulando
O argumento fundamental é o suposto fim de um ciclo calendárico maia antigo, a Contagem Longa, quando chegue o dia 13.0.0.0.0 desse calendário. Na verdade não é completamente seguro que a Contagem Longa seja periódica. Nos códices maias, escritos durante o período pósclássico (depois do ano 1100), aparecem datas que ultrapassam este número. Mais importante ainda, recentemente foram descobertas inscrições num templo, datadas na época preclássica (entre os anos de 2000 AC e 250 DC), quando o calendário era criado, que apresentam a data 17.0.1.3.0 muito posterior ao 13.0.0.0.0. Os maias abandonaram a Contagem Longa durante o período posclássico, talvez até perderam interesse nela. Quando os espahnois aportaram em suas terras, no ano de 1524, o sistema já não era mais usado: como poderíamos nos informar então?
Mas, ainda se acreditássemos que efetivamente o calendário recomeça o dia maia 13.0.0.0.0, como saber a qual data de nosso calendário (o gregoriano) corresponde? Os calendários maias não têm qualquer base astronômica. A sincronização entre ambos os sistemas de contar datas é muito complexa e sujeita a erros. Eu juntei, na tabela abaixo, algumas das datas prováveis para o dia 13.0.0.0.0. Na primeira coluna aparece o autor do trabalho, na segunda o número usado para correlacionar os calendários, na terceira aparece o dia gregoriano correspondente à origem do calendário maia (0.0.0.0.0) e na última temos a data gregoriana do suposto fim (e recomeço) do calendário maia. A linha com fundo cinza, ressalta o valor que os autores norte-americanos das profecias maias consideram quando afirmam que estamos nas vésperas de um câmbio universal. Note-se no entanto, que essa data corresponderia ao 23 de dezembro e não ao 21 como é proclamado. De resto, vemos que o Fim da Contagem Longa poderia ter acontecido em 1734 ou poderá vir a ocorrer em 2532.
| Autor | Valor | 0.0.0.0.0 | 13.0.0.0.0 |
| Smiley | 482699 | 26 Jun 3392 AC | 5 Nov 1734 |
| Makemson | 489138 | 11 Fev 3374 AC | 22 Jun 1752 |
| Spinden | 489384 | 15 Out 3374 AC | 23 Fev 1753 |
| GMT* | 584285 | 13 Ago 3114 AC | 23 Dez 2012 |
| Böhm | 622261 | 4 Ago 3010 AC | 14 Dez 2116 |
| Kreichgauer | 626927 | 14 Mai 2997 AC | 23 Set 2129 |
| Wells, Fuls | 660208 | 27 Jun 2906 AC | 6 Nov 2220 |
| Hochleitner | 674625 | 22 Dez 2868 AC | 3 Mai 2259 |
| Escalona Ramos | 679108 | 27 Mar 2874 AC | 5 Ago 2272 |
| Weitzel | 774078 | 3 Abr 2594 AC | 12 Ago 2532 |
| *GMT significa Goodman, Martínez e Thompson. Outro valor frequentemente citado de GMT é 584283. Com este valor 13.0.0.0.0 é no 21 de dezembro de 2012. | |||
Os Sinais
Os apocalipses vêm sempre precedidos por sinais. Os deuses (ou o Deus) os enviam para alertar os bons que devem atuar para se proteger. Os sinais nos tempos modernos pretendem ter base científica. E no caso das profecias maias não é diferente. Três são as versões mais conhecidas (na lista adicionamos mais uma) :
- Supertempestade Solar. Sabemos há 150 anos que o Sol tem violentos desprendimentos de matéria e energía que alteram o meio interplanetário onde se encontra a Terra. Sabemos também que as tempestades solares têm sua frequencia e intensidade moduladas pelo chamado Ciclo Solar, cuja representação mais característica é por meio do índice de manchas. O Ciclo Solar tem uma duração aproximada de 11 anos (mais ou menos 3) e neste momento atravessamos um periodo de aumento da frequência de tempestades solares: é o que denominamos máximo de atividade solar. Sabemos por último, que dada a distância que nos separa de nossa estrela central e a atmosfera e magnetosfera terrestres, os efeitos das tempestades solares são muito pequenos para a vida na Terra, de fato o fenômeno passou despercebido por milhares de anos, e só foi descoberto por acaso usando um telescópio em 1859. Os profetas chegaram a afirmar que este ciclo sería mais intenso que os anteriores e que uma tempestade solar poderia pôr em perigo toda a humanidade, embora sem indicar como. (Também tem autores do âmbito científico que deram voz de alarme, de maneira completamente irresponsável. Ver esta série de posts: 1, 2 e 3). No entanto estamos monitorando a atividade solar (é, por outra parte, minha especialidade profissional) e muito pelo contrário o Sol mostra sinais de fadiga. Como já fizemos no passado, mostramos na figura abaixo a atividade do sol no passado recente atualizada até o mês de novembro. A curva preta representa o índice de manchas observado, a curva vermelha, a previsão a futuro. Como pode-se ver, o índice é hoje metade do que era durante o anterior pico da atividade. E a tendência é seguir assim. Aliás, a atividade dos últimos 15 días foi muito esparsa, então esperamos que para o dia 21 de dezembro não haja muitas novidades.
- Inversão do Campo Magnético Terrestre. Este fenômeno natural, que já aconteceu muitas vezes no passado, suscita também a preocupação dos profetas que afirmam que será um sinal mais, e que virá acompanhado por crises mundiais, sociais e econômicas. No entanto não há razão para supôr que a inversão acontecerá nos próximos dias. O processo, que talvez já começou, leva milhares de anos para se completar, o último aconteceu há quase um milhão de anos. As escalas temporais geológicas são longas. Mesmo se o campo se inverter dentro de pouco tempo, não é muito lógico pensar que irão acontecer desastres. Ao final de contas já aconteceu centenas de vezes no passado e tanto a vida em geral, como o homem em particular sobreviveram. Mais informações aqui e aqui.
- Alinhamento Galático. Diz a profecia que o Sol e o centro galático ficarão numa linha reta um com o outro, que esse dia será o 21 de dezembro, data do solstício, e que então poderosos jatos emanados do Centro Galático atingirão a Terra. Dizem também que esta coincidência só acontece a cada 26.000 anos por culpa da precessão dos equinócios. Mostramos que não há qualquer alinhamento previsto para a data, nem para os 200 anos entre 1900 e 2100. Também escrevemos, que não há nenhum jato galático que possa nos afetar.
- Asteróide. Menos citado, sempre aparece a suposta existência de um asteróide em direção da Terra. A menos de uma semana, se com todos os telescópios que observam o céu em busca de asteróides assassinos aínda não foi detectado é porque deve estar por trás de Júpiter e assim apenas nos poderia fazer algum dano dentro de muitos anos. À presente, apenas dois asteróides escapam da clasificação 0 (nenhum perigo) da Escala de Torino, para 1 (risco baixo) e as datas previstas de aproximação da Terra são entre 2040 e 2057. A Tabela completa está neste link.
Se devemos nos basear nestes sinais para acreditar na proximidade de uma catástrofe, não vamos ser convencidos. Muito próximos da data, seguimos sem ver nenhum deles. Por esse motivo não nos cabe a menor sombra de dúvida ao dizer que o curso da história da humanidade continuará muito além do 21 de dezembro de 2012, com suas misérias e grandezas. Também não temos dúvida que novos profetas já estão escrevendo sobre os próximos apocalipses que também nunca irão a acontecer.
Nos propusemos desde o início de nosso trabalho, que este blog leve uma voz otimista com a visão científica. E assim continuaremos.
Porque nossa Última Hora ainda não chegou.
miércoles, 5 de diciembre de 2012
Alinhamento Planetário sobre as Grandes Pirâmides Egipcias
Nas redes sociais circula uma foto que fala de um alinhamento planetário, uma estranha disposição de Saturno, Vênus e Mercúrio que, quando fotografado próximo das grandes pirâmides de Guiza, (Keops, Kefrén e Micerino, ou em seus nomes egípcios Jufu, Jafra e Menkaura) aparecem justo acima de cada uma das construções. A foto em questão tem o seguinte comentário: Alinhamento planetário sobre Guiza. Acontece unicamente a cada 2.737 anos. Abaixo a foto.
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| Pirâmides de Micerino, Kefrén e Keops (de esquerda para direita). Acima delas as três estrelas, supostamente Mercúrio, Vênus e Saturno numa estranha conjunção. |
Obviamente que esta conjunção foi relacionada com as profecias maias (estranho que não falaram que o ciclo é de 5128 anos, o uma Contagem Longa maia). A verdade é que a foto parece muito falsa, mesmo assim decidi verificar a informação. Em primeiro lugar temos que ver a orientação da foto. O diagrama abaixo mostra a disposição das pirâmides mais famosas da antiguidade egípcia.
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| Diagrama das grandes pirâmides de Guiza, com os nomes acima. Fonte Wikipedia, acesso em 04/12/2012. |
Comparando com a foto, o diagrama mostra que foi tomada desde o Sul, olhando em direção Leste, ou seja, direção Norte Leste. O segundo passo é verificar a posição relativa dos planetas. A conjunção é real, Saturno, Vênus e Mercério estão muito juntos, e aínda próximos do Sol. Justamente, por estarem tão perto do Sol, podem ser vistos unicamente antes do amanhecer, ou seja, olhando em direção ao Sul Leste e não ao Norte Leste. Além do mais, a posição relativa dos planetas é muito mais vertical. O diagrama abaixo representa o céu sobre Guiza em 5 de dezembro de 2012 as 6:34 da manhã (hora local) obtido usando o programa gratuito kstars.
A linha verde representa o horizonte, SE indica a direção Sul Leste, o que fica debaixo não pode ser visto ainda. Quase no centro, abaixo da linha verde, o pequeno círculo amarelo é o Sol (Sun), indicando que está por amanhecer, o céu deveria estar mais claro que na foto. Por cima do horizonte, em letras amarelas, vemos os nomes dos três planetas (Mercury, Venus, Saturn) ao lado de pontos brilhantes. A mancha cinzenta representa a Via Láctea e vemos também as linhas ligando estrelas que representam as constelações. Fica claro deste esquema, que a posição mostrada na suposta foto do alinhamento é completamente falsa. Poderiamos também analisar as posições relativas das estrelas para ver a qué distância das pirámides nos deveriamos colocar para ver a coincidência de um planeta sobre cada pirâmide, mas acredito que os elementos até aqui apresentados já mostram a falsidade da foto.
Que a suposta repetição deste estranho fenômeno (2737 anos) é pura invenção fica fora de questão. Sabendo que Saturno, o planeta mais lento dos três, tem um periodo orbital de 30 anos, podemos supor que suas conjunções com Vênus, que tem um periodo orbital de 224 dias, e Mercúrio, que orbita em torno do Sol a cada 88 dias, aconteçem a cada 30 anos aproximadamente.
A foto da conjunção, além de pouca qualidade fotográfica demonstra pouca investigação, porque não custa muito buscar uma foto das pirâmides em direção Leste olhando para o Sul e superpor os planetas na posição em que se encontram realmente. Muito trabalho para uma questão tão efêmera. Tão efêmera como as ideias que intenta difundir.
É bem provável que a teoria da conjunção única continue. Por exemplo, em 12 de janeiro de 2013, depois de sobreviver ao Apocalipse veremos, como no diagrama da figura de abaixo, que Vênus, Plutão, Mercúrio, o Sol e a Lua estarão bem próximos. Saturno estará afastado do resto (acima a direita na figura) e Marte estará entrando por abaixo a esquerda. Não causará muita impressão, no entanto, porque o Sol ofuscará os demais objetos. Talvez esta conjunção seja merecedora do rótulo de única em 10.000 anos. Quem sabe venham nos contar que a última vez que foi vista construían as pirâmides... Ou qualquer outra coisa, porque nesta época de propagação instantânea das ideias, a incontinência do enter vence qualquer reflexão.
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| Esquema que representa o céu as 8:34 do sábado 12 de janeiro de 2013 em Guiza olhando em direção Sul Leste. |
jueves, 18 de octubre de 2012
A moderada atividade solar
A pouco mais de dois meses do dia em que profecias afirmam que as explosões solares provocarão blecautes de energia globais com duração de meses, danificando os circuitos elétricos dos satélites de comunicação e posicionamento, induzindo acidentes de aviação e acabando com o sistema bancário mundial. A nove semanas, ou mais precisamente 57 dias da data em que se aguarda o Fim dos Tempos, o maior responsável pelo caos final, nossa estrela central, o Sol, não parece estar por dentro destas ideias. Muito pelo contrário seu comportamento é bem moderado, aquém das previsões dos físicos solares, que não eram nada alarmistas.
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| Gráfico da atividade solar. Fonte: Space Weather Prediction Center |
O gráfico acima mostra a evolução do ciclo solar. No eixo das abscissas (horizontal) os números indicam os anos. No eixo das ordenadas (vertical) o índice de manchas: quanto maior esse número o Sol está mais ativo e provoca mais explosões, ejeções de massa, etc. Cada pontinho preto representa a média do índice durante um mês calendário. O último pontinho da direita é a média do mês de setembro 2012. A curva azul é uma média corrida para suavizar as variações rápidas e ver tendências em escalas temporais maiores. A curva vermelha é a previsão feita por um grupo de estudosos do Sol em base a modelos e ao histórico da atividade nos últimos anos. Como pode se apreciar do gráfico, a atividade presente nem atinge o depreciado nível previsto pela curva vermelha.
O sol não quer sair de sua letargia. Acredito que teremos um verão solar muito frio.
miércoles, 22 de agosto de 2012
Apocalypse Not
Eu já disse muitas vezes que não gosto de Apocalipses. E a consequência de este meu ceticismo é que me levou a escrever este Blog. Escrevi sobre os novos Apocalipses, sobre os maias, mas também sobre aqueles originados nos âmbitos acadêmicos: A Mudança Climática, ou o Blecaute Global e Derradeiro.
A revista Wired publica um interessante artigo de Matt Ridley onde expõe a sua maneira estas ideias que defendo aqui. Para aqueles que se atrevam com o inglês, voilà o link: Apocalypse Not. Na visão de Ridley os clássicos quatro cavaleiros do Apocalipse, hoje em dia estão representados pelas substâncias químicas, as doenças, a população e os recursos naturais. A cada um deles dedica uma seção e mostra como as piores profecias realizadas pelos mais respetados cientistas de sua época, não chegaram nunca nem sequer a comprometer a vida humana na Terra.
Apocalypse Not é também uma expressão idiomática que brinca com o título do famoso filme de Coppola, Apocalypse Now. E o artigo de Ridley, apesar de me fazer sentir acompanhado, aumenta minha curiosidade por entender o mecanismo que dispara a obsessão por imaginar nossos próprios finais.
Até o próximo Apocalipse.
sábado, 11 de agosto de 2012
Atividade Solar em Julho
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| Figura tomada de http://www.swpc.noaa.gov/SolarCycle/ em 11/08/2012. |
Como todos já savem, o ciclo solar está chegando a seu máximo. Junto con ele vieram desta vez as profecias apocalípticas: as baseadas na interpretação do calendário maia e as que fundamentam-se em estudos geomagnéticos. Ambas brigam abertamente por imaginar os cenários mais assustadores.
O certo é que enquanto nossos profetas escrevem seus apocalipses, a Natureza encarrega-se por desmentr. A figura mostra a situação atual da atividade solar. Os círculos pretos unidos por traços indicam o valor médio do índice de manchas do mês, a curva azul é uma média que suaviza as variações e a curva vermelha é a previsão a futuro, os números no eixo horizontal (abscissas) são os anos a partir de 2000. Depois do pico do mês de outubro do ano passado, a atividade diminuiu, logo aumentou um pouco mas faz vários meses que estabilizou. A menos de um ano do máximo, o Sol segue estando muito calmado.
A última grande tempestade solar aconteceu em março de 1989, aquele ciclo foi de forma geral muito mais intenso que o atual. Deveriamos esperar que uma supertempestade venha a ocorrer nos próximos meses? Não parece lógico. Enquanto isso os apocalípses terão de buscar uma desculpa para explicar seu erro.
miércoles, 8 de agosto de 2012
Riscos de uma supertempestade solar (III)
No post anterior falamos das emissões solares geradas durante um evento explosivo, como uma explosão ou uma ejeção de massa coronal. Vamos ver agora as ameaças destas emissões segundo as visões mais pesimistas.
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| Típica aurora Polar observada em latitudes altas. |
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| Aurora polar avermelhada, as vezes observada em latitudes menores. |
Buscando na literatura encontramos que a origem das ideias mais catastróficas é um único autor: John Kappenman, engenheiro elétrico norte-americano, proprietario da firma Metatech Corporation, que faz consultoría e brinda assistência à linhas de transmissão elétrica em questões de interferência ambiental ou intencional. John Kappenman se dedicou nos últimos 20 anos a estudar os fatores que podem danificar ou desestabilizar a transmissão de corrente elétrica. Em reconhecimento a seu trabalho a National Academy of Sciences, o Congresso e o governo norte-americanos o chamaram para pedir conselho. Em vez destes relatórios em que utiliza uma linguagem técnica e fria, vou me referir aqui a um artigo que publicou na revista IEEE Spectrum, em fevereiro de 2012. Esta revista, embora dedicada à divulgação técnico científica, pertence à mais prestigiosa associação de engenheria elétrica do mundo, responsável também pela publicação das melhores revistas relacionadas com a transmissão de eletricidade, as telecomunicações e a computação. Não é um tabloide lido por milhões de pessoas, pelo contrário é seguida por um pequeno grupo de profissionais com formação universitária. Em suma, é lida por formadores de opinião e gente das mais altas hierarquias empresariais e governamentais. Por isso mesmo me assustou a linguagem utilizada.
Eu vou a traduzir o primeiro páragrafo deste artigo:
Linguas luminosas de intensas cores vermelhas, verdes e violetas brilham e pulsam através dos céus do norte e do sul como vastas conflagrações cósmicas. Em minutos, milhões de pessoas estão tuitando, enviando mensagens de texto pelo celular e blogueando sobre a fantástica visão. Mas, repentinamente, o céu torna-se de cor sangue vermelho e a fascinação dá passo ao pânico.
Relacionado com o espetáculo celestial acontecem enormes variações do campo magnético na magnetosfera terrestre, que causam imensos fluxos de corrente elétrica na atmosfera superior sobre a maior parte do planeta. Estas enormes correntes perturbam o campo magnético terrestre normalmente calmo, que por sua vez induzem oscilações de corrente nas redes elétricas e de comunicações entre os continentes. As luzes das ruas piscam até apagar, a eletricidad desaparece. Um blecaute planetário está acontecendo deixando vastas regiões de Norte e Sulamérica, Europa, Austrália e Ásia sem energia.
Em poucos meses, a crise se aprofunda. Em muitos lugares a falta de comida crece vertiginosamente, a água potável passa a ser um bem precioso e os pacientes que precisam de transfusões de sange, insulina ou drogras críticas morrem enquanto aguardam. O comércio normal pára, substituido por um mercado negro e o crime violento. Enquanto as fatalidades crescem por milhões, a rede social desaba.
O qué pode justificar tamanho prólogo apocalíptico? Temos evidências de que algo assim poderia vir acontecer? Segundo Kappenman embora não há evidências observacionais, pode-se especular com esta catástrofe mundial. O fundamento de seus argumentos é a comparação dos efeitos criados pelas maiores tempestades magnéticas registradas nos tempos modernos.
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| Danos provocados aos transformadores da Companhia de eletricidade de Quebec durante o blecaute de março de 1989 (Fonte: Severe Space Weather Events, Nat. Ac. Sci., 2008) |
A primeira (na verdade foram mais de uma) aconteceu entre o 28 de agosto e o 4 de setembro de 1859. Em coincidência, Richard Carrington, astrônomo aficcionado inglês, observou em 1 de setembro através de seu telescópio a primeira explosão solar. Não se tratou apenas da maior white light flare (explosão em luz branca) jamais observada, essa semana aconteceram as maiores pertubações do campo magnético terrestre enquanto era observado o céu avermelhado (aurora polar, ver foto acima) até nos trópicos, e as linhas telegráficas chegaram a curtocircuitar, algumas prenderam fogo e em outros casos, tinham corrente elétrica para funcionar com as baterias desligadas. Estes fenômenos foram observados por vários dias. Há muitas testemunhas presenciais embora na prática temos pouca precisão sobre a extensão dos danos. Como argumento é referido o fato de que em 1859 o telégrafo era o meio de comunicação mais avançado da época, o que hoje estaria representado por comunicações satelitais e telefonia móvel.
A pregunta que se faz Kappenman e acredita ter uma resposta correta é: o qué ocasionaria hoje uma tempestade geomagnética parecida com a de 1859. Para responder parte do caso da tempestade de março de 1989, que deixou sem luz a provincia de Quebec. As correntes geoinduzidas (GICs) pelas partículas que entraram na atmosfera durante a tempestade, sobrecarregaram a rede de alta tensão, o que criou um curtocircuito que se propagou rapidamente a outras redes. O apagão prolongou-se por 9 horas e produziu perdas milhonárias. A maior preocupação de Kappenman é com os transformadores de ultra alta tensão (EHV em inglês) que podem queimar por culpa das GICs, a confecção dos mismos é quase artesanal e portanto sua reparação ou substituição é muito demorada. Se em escala global muitos destes EHV queimaram começãria um problema muito sério: a falta de eletricidade em vastas regiões provocaria graves problemas de alimentação, falta de água potável, carência de transporte e riscos severos na conservação de medicamentos por falta de geladeiras.
Se Kappenman não poupa na descrição apocalíptica inicial é porque ele está convicto que centenas de transformadores poderiam sair de serviço se outro evento Carrington (como são chamados os eventos da semana de 28/8 a 2/9/1859) voltasse a ocorrer. O fator decissivo nos prejuizos induzidos por uma tempestade magnética é a variação do campo magnético. Em março de 1989, mudou entre 400 e 500 nT/minuto (nano teslas por minuto), sendo dos mais importantes das últimas décadas. No entanto, Kappenmann mostra que en 1921 outra tempestade geomagnética teria provocado variaciões de até 5000 nT/minuto e o evento Carrington foi aínda maior. (Como referência, o campo magnético terrestre é em torno de 60.000 nT em média)
Kappenman vai ainda mais longe. Ele especula com que poderiam chegar a acontecer centenas de Fukushimas. Como? Para compreender temos que ver como aconteceu o meltdown do reator japonês durante o tsunami de 2011: o terremoto disparou, por prevenção, o desligamento do reator, o tsunami ultrapassou o muro de contenção e a água invadiu a sala onde encontrava-se o gerador elétrico diesel de emergência, e a energia externa cortou quando cairam os postes elétricos por culpa do tremor. Em síntese Fukushima ficou em poucas horas sem nenhum tipo de eletricidade, por esse motivo não podia-se fazer funcionar o circuito primário de arrefecimento, e o reator estava muito quente. No decorrer das horas e dias, o material começou a fundir e houve escape radioativo. Então, se por culpa de uma tempestade geomagnética muitos transformadores EHV ficassem fora de funcionamiento, os reatores deverão ser desligados e passarão a depender do gerador diesel para fazer funcionar a bomba do circuito de arrefecimento. Mas a norma é que os geradores têm combútivel apenas para uma semana. Como o caos vai tomando cada vez mais lugar na cidade, a carência de combustível levará eventualmente a que os reatores fiquem sem nenhum tipo de energia e com o reator ainda quente demais. Em poucas semanas centenas de reatores no mundo todo começariam a fundir...
Todo este Pandemonium, poderia ser evitado facilmente diz Kapenmann, a ideia é isolar nas linhas de transmissão o neutro da terra por meio de um capacitor, o que evitaria que as GICs tivessem onde descarregar. O problema é que as terras estão para evitar curtocircuitos quando a corrente cresce descontroladamente. Nesse caso alguma chave deveria bypassar o capacitor. Esse dispositivo, baseado num tubo de vacúo já foi desenhado pela firma Advanced Fusion Systems, sendo capaz de atuar numa fração do ciclo elétrico (digamos que uns 10 ms) e suportar até 20.000 A de corrente. Só é necessario fazer estas modificações em todas as linhas de alta tensão do mundo a um custo muito menor que os danos projetados en seus catastróficos relatórios. O artigo de Kapenmann termina com uma advertência: Se não fazemos nada, se paramos a esperar que os políticos apreciem os riscos e atúem- podemos pressenciar uma das maiores catástrofes de todos os tempos.
Como já tenho dito em outras oportunidades, não gosto dos apocalípses, qualquer que seja a origem. Kapenmann não apresenta evidência alguma de que este seja mais real que outros já proclamados: sua base é mostrar que tempestades geomagnéticas anteriores foram de maior intensidade que a que afetou Quebec em 1989. Mas não oferece relação empírica ou teórica entre a intensidade das correntes induzidas a partir das variaçõe do campo magnético. Também não fica clara a distribuição destas correntes sobre a superfície terrestre, nem o fluxo necessário para queimar um transformador EHV. Desta forma sua conclusão apocalíptica é, no melhor dos casos, especulativa.
Por enquanto tomei un articulo de divulgação. Em outros posts vou analisar os trabalhos científicos de Kapenmann, no que diz respeito a suas predições catastróficas.
miércoles, 25 de julio de 2012
Riscos de uma Supertesmpestade Solar (II)
Para poder avançar nesta questão devemos primeiro falar dos diferentes tipos de emissões que produze o Sol. Podemos resumi-las em três:
- Luz, que em sua forma mais geral chamamos ondas eletromagnéticas para incluir desde rádio-frequências, infra-vermelho, luz propriamente, ultra violeta e raios X. As rádio-frequências, o infra-vermelho a a luz são capazes en maior ou menor medida de atravessar a atmosfera terrestre e chegar até a superfície, mas como são radiações não ionizantes, não representam nenhum perigo. Já os raios-X e os ultra-violetas, perigosos para a saude, são quase completamente absorvidos na atmosfera. Seus efeitos só são sentidos nas camadas mais altas ou no espaço exterior. Dada sua velocidade, são as primeiras evidência que recebemos de qualquer evento solar.
- Partículas carregadas. Pode se tratar de elétrons, prótons e néutrons, ou também de íons. Também são chamadas de raios cósmicos solares ou em inglês, Solar Energetic Particles (SEP). Estas partículas têm uma altíssima velocidade, próxima à da luz. Os raios cósmicos não são capazes em geral de chegar até a superfície terrestre embora podem ser detectados de forma indireta pelos efeitos que provocam. Como têm velocidades próxima à da luz, chegam uns minutos após às ondas.
- Ejeções de massa coronal. Conformadas por uma grande quantidade de matéria (trilhões de kg) da atmosfera solar, transportam também campo magnético. Sua velocidade de deslocamento é muito menor, entre 1.000 e 3.000 km/s. A massa solar é muito tênue e incapaz de atravessar a atmosfera terrestre, no entanto seu campo magnético interage com o terrestre provocando efeitos visíveis, como as chamadas auroras polares. Demoram em arribar à Terra entre 1 e 3 dias aproximadamente.
Durante as chamadas tempestades solares, uma ou até as três formas de emissão podem estar presentes. A discusão sobre seus efeitos é o miolo destes artigos. Em princípio podemos resumi-los da seguinte maneira: 1) e 2) afetam só os satélites danificando circuitos eletrônicos, fazendo-lhes perder sua orientação, gerando distúrbios que inibem a conexão com a base na Terra, colocando em risco a saude dos astronautas.
As ejeções de massa têm um efeito indireto: a interação do campo magnético terrestre com o da ejeção pode provocar o ingresso na baixa atmosfera terrestre de uma gran quantidade de partículas. No vídeo acima pode-se ver uma animação de uma ejeção preparada pela NASA, desde que sai do Sol até que chega na Terra. Perto da Terra, os campos magnéticos entram em contato, as linhas sofrem uma reconfiguração e partículas carregadas que se encontram no espaço saõ aceleradas e entram pelos pôlos, onde o campo magnético é de maior intensidade. São estas partículas as responsáveis de criar as auroras polares. Também podem induzir correntes nas linhas de alta tensão sobrecarregando-as. Na visão de John Kapenmann, um engenheiro elétrico norte-americano e dono d euma firma de consultoria sobre segurança em redes de transmissão, este é o maior perigo que enfrentamos caso una supertempestade solar venha acontecer.
É sobre este tema que vamos falar no próximo post.
domingo, 15 de julio de 2012
Riscos de uma supertempestade solar
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| O Solar Dynamic Observatory registra a erupção de uma proeminência em 16 de abril de 2012 |
Parte destes relatos é encontrado uma e outra vez nas profecias maias de fim de mundo. Por exemplo no livro Apocalypse 2012 do jornalista Lawrence Joseph e em documentários dos canais Discovery Channel e History Channel.
A primeira vez que ouvi estes relatos apocalípticos parecera-me fora de toda lógica e supus que sua origem poderia estar nos ambientes fatalistas afastados da ciência ou da tecnologia. Posteriormente pude rastrear os fundamentos destas teorias e cheguei até alguns documentos produzidos nos mais nobres centros de pesquisa científica como a National Academy of Sciences dos EUA. Minha perplexidade só aumentou com esta descoberta. Assim que antes de continuar escrevendo sobre a questão acometi contra os informes que dão base a tamanha pavura. Numa série de posts vou-me a referir a eles, além de outros documentos, que relativizam o cenário de destrução massiva. Não vão ser artigos fáceis nem curtos, intentarei ser rigoroso e crítico ao mesmo tempo. Posso no entanto adiantar meu pensamento: as conclusões catastróficas derivadas destes informes estão exageradas e baseiam-se em incontáveis condicionais.
Stay in touch.
sábado, 26 de mayo de 2012
A mais antiga tabela astronômica maia
As ruinas de Xultun, Guatemala, foram descobertas em 1915, e embora começaram a ser estudadas arqueologicamente em 1920, ficaram abandonadas à depredação dos caçaadores de tesouros. Foi por graça destes piratas que em 2010 decobriu-se a entrada a uma abóbada rica em paredes ornamentadas com pinturas. Umas semanas atrás os resultados preliminares da pesquisa apareceram publicados na revista Science: Ancient Maya Astronomical Tables from Xultun, Guatemala, de W. Saturno, D. Stuart, A. Aveni y F.Rossi (Science 336, 714, 2012). A abobada é datada no período clássico maia. Em uma de suas paredes (a leste) podem ser vistos números maias, no formato de pontos e linhas. Apesar que o tempo apagou alguns hieróglifos, o grupo de arqueólogos, entre os quais se encontra Anthony Aveni, célebre investigador da cultura astronômica maia e autor do livro Observadores del cielo en el México antiguo (Ed. Fondo de Cultura Económico), acredita ser posível determinar sem muito erro algumas sequências formadas. Uma das conclusões do grupo de autores é que os números representam intervalos de dias, relacionados com lunações, de uma forma que lembra o Códice de Dresde escrito durante o período pos-clássico (pelo menos 500 anos depois destas pinturas). Em outra parede há quatro colunas de 5 números de pontos e linhas escritos verticalmente, cada coluna posui um tzol'kin de cabeçalho, embora estes não foram descifrados. No entanto cada um dos números distribuidos verticamente são legíveis e parecem formar datas da Contagem Longa. Eles são:
Maya Dias Anos
8.6.1.9.0 1.195.740 3273,8
2.7.9.0.0 341.640 935,4
17.0.1.3.0 2.448.420 6703,5
12.5.3.3.0 1.765.140 4832,8
Na primeira coluna da tabela aparecem os números em sistema maia. Lembramos que a Contagem Longa consistia em contar os dias, utilizando uma base (quase) vigesimal (20) que, por uma razão desconhecida ainda, terminava no número 13.0.0.0.0 também chamado 13 bak'tuns e que, segundo alguns arqueólogos, vai acontecer no próximo 21 de dezembro de 2012. A segunda coluna transforma o número maia a nosso sistema decimal mostrando o intervalo em dias. E, por último, considerando nosso calendário gregoriano, a quarta coluna mostra o intervalo em anos. Como pode ser apreciado, são intervalos muito longos, de milhares de anos. Os investigadores acreditam que não se trata de datas, mas de intervalos, periodos que deveriam ter relação com outros períodos. No entanto, não foi encontrada relação alguma entre estes números e os pintados em outras paredes, e tampouco existem conexões claras com ciclos astronômicos (de Vênus e a Lua por exemplo) ou calendáricos (o Ciclo do Calendário) conhecidos dos maias. A conclusão do artigo é que por sua semelhança com tabelas escritas no Códice de Drede, única evidência escrita dos conhecimentos astronômicos maias, estes se remontaríam a períodos anteriores ao pos-clássico.
Chama a atenção qua o terceiro algarismo corresponde a 17 bak'tuns, um número que ultrapassa a duração de uma Contagem Longa em 570.420 dias ou 1578 anos (no Códice de Dresde também há números parecidos). Se a Contagem Longa representa um ciclo do Mundo, um voltar a começar, qual é o sentido de um intervalo maior? Poderiamos argumentar que os maias não pensavam que o que aconteça no fim do calendário, será tão grave como para modificar as órbitas de Vênus, Mercúrio ou a Lua, e que seguirá havendo habitantes na Terra para contemplar as noites estreladas.
Maiormente, este descobrimento demonstra nossa ignorância sobre o Calendário Maia e os conhecimentos astronômicos deste povo, que, e na minha humilde impressão, estão sobrevalorados. E reforça minha opinião que as profecias nada mais são que interpretações incoerentes de nossa sociedade.
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