sábado, 15 de diciembre de 2012

21 de dezembro de 2012: a uma semana do fim

E aqui estamos nós. A menos de uma semana de uma magna data. Aquela marcada para ser o Fim do Mundo.  Um novo Fim.  Em diferentes sítios de Internet, relógios mostram quantos dias, horas, minutos e segundos faltam para a hora H, como este sítio oficial do 21 de dezembro de 2012, onde também podem ver um vídeo do entediante anúncio do guia de sobreviventes para os meses de desastres que estão por vir.

Neste momento, enquanto escrevo estas linhas, restam apenas 5 dias e 14 horas.

Como já comentei no sítio dedicado às profecias de 2012: A Hora Última, desde que tomei contato com esta teoria fiquei fascinado.  Fascinado por sua propagação mundial.  Por qué este Apocalipse tem mais chegada que outros anteriores?  É porque tem a ver  com os maias, povo extinto? Hollywood nos entregou, com seu filme 2012, uma descrição luxuosa em detalhes, barroca no estilo e absurda nos conteúdos do que irá nos acontecer em... menos de 7 dias.  Supostos meios de divulgação científica, como o Discovery Channel, aportaram sua dose de confusão criando documentários extravagantes e sesgados, longe dos afazeres e as preocupações dos cientistas de carne e osso que cada dia se desdobram para arrancar da austera natureza uma mínima amostra de conhecimento.  Também a TV local fez seu aporte. As mesas das livrarias inundaram-se de textos vários que contam de formas diferentes o signficado profundo desta época.  Todos eles dizem que haverá sinais externas, fenômenos que objetivamente todos poderemos observar, que nos indicarão o fim das épocas.

E eu, declarado atéu dos Apocalipses, dediquei tempo e esforço para desmontar esta intriga criada por  autores norte-americanos,  que uns 30 anos atrás encontraram fracos argumentos a favor de uma teoria desmesurada.  Foquei nos sinais, os fenômenos objetivos.  Tanto nas páginas do sítio Web que criei especialemente, como neste blog mais dinâmico, analisei àqueles que parecem mais significativos. Meu veredicto é que no há motivo nenhum de preocupação.

Recapitulando

O argumento fundamental é o suposto fim de um ciclo calendárico maia antigo, a Contagem Longa, quando chegue o dia 13.0.0.0.0 desse calendário. Na verdade não é completamente seguro que a Contagem Longa seja periódica.  Nos  códices maias, escritos durante o período pósclássico (depois do ano 1100), aparecem datas que ultrapassam este número.  Mais importante ainda, recentemente foram descobertas inscrições num templo, datadas na época preclássica (entre os anos de 2000 AC e 250 DC), quando o calendário era criado, que apresentam a data 17.0.1.3.0 muito posterior ao 13.0.0.0.0. Os maias abandonaram a Contagem Longa durante o período posclássico, talvez até perderam interesse nela.  Quando os espahnois aportaram em suas terras, no ano de 1524, o sistema já não era mais usado: como poderíamos nos informar então?

Mas, ainda se acreditássemos que efetivamente o calendário recomeça o dia maia 13.0.0.0.0, como saber a qual data de nosso calendário (o gregoriano) corresponde?  Os calendários maias não têm qualquer base astronômica. A sincronização entre ambos os sistemas de contar datas é muito complexa e sujeita a erros.  Eu juntei, na tabela abaixo, algumas das datas prováveis  para o dia 13.0.0.0.0. Na primeira coluna aparece o autor do trabalho, na segunda o número usado para correlacionar os calendários, na terceira aparece o dia gregoriano correspondente à origem do calendário maia (0.0.0.0.0) e na última temos a data gregoriana do suposto fim (e recomeço) do calendário maia. A linha com fundo cinza, ressalta o valor que os autores norte-americanos das profecias maias consideram quando afirmam que estamos nas vésperas de um câmbio universal.  Note-se no entanto, que essa data corresponderia ao 23 de dezembro e não ao 21 como é proclamado. De resto, vemos que o Fim da Contagem Longa poderia ter acontecido em 1734 ou poderá vir a ocorrer em 2532.

AutorValor 0.0.0.0.013.0.0.0.0
Smiley48269926 Jun 3392 AC5 Nov 1734
Makemson48913811 Fev 3374 AC22 Jun 1752
Spinden48938415 Out 3374 AC23 Fev 1753
GMT*58428513 Ago 3114 AC23 Dez 2012
Böhm 622261 4 Ago 3010 AC14 Dez 2116
Kreichgauer62692714 Mai 2997 AC 23 Set 2129
Wells, Fuls66020827 Jun 2906 AC 6 Nov 2220
Hochleitner67462522 Dez 2868 AC 3 Mai 2259
Escalona Ramos67910827 Mar 2874 AC5 Ago 2272
Weitzel7740783 Abr 2594 AC12 Ago 2532
*GMT significa Goodman, Martínez e Thompson. Outro valor frequentemente citado de GMT é 584283. Com este valor 13.0.0.0.0 é no 21 de dezembro de 2012. 

Os Sinais

Os apocalipses vêm sempre precedidos por sinais.  Os deuses (ou o Deus) os enviam para alertar os bons que devem atuar para se proteger.  Os sinais nos tempos modernos pretendem ter base científica.  E no caso das profecias maias não é diferente.  Três são as versões mais conhecidas (na lista adicionamos mais uma) :

  1.  Supertempestade Solar.  Sabemos há 150 anos que o Sol tem violentos desprendimentos de matéria e energía que alteram o meio interplanetário onde se encontra a Terra. Sabemos também que as tempestades solares têm sua frequencia e intensidade moduladas pelo chamado Ciclo Solar, cuja representação mais característica é por meio do índice de manchas.  O Ciclo Solar tem uma duração aproximada de 11 anos (mais ou menos 3) e neste momento atravessamos um periodo de aumento da frequência de tempestades solares: é o que denominamos máximo de atividade solar.  Sabemos por último, que dada a distância que nos separa de nossa estrela central e a atmosfera e magnetosfera terrestres, os efeitos das tempestades solares são muito pequenos para a vida na Terra, de fato o fenômeno passou despercebido por milhares de anos, e só foi descoberto por acaso usando um telescópio em 1859.  Os profetas chegaram a afirmar que este ciclo sería mais intenso que os anteriores e que uma tempestade solar poderia pôr em perigo toda a humanidade, embora sem indicar como.  (Também tem autores do âmbito científico que deram voz de alarme, de maneira completamente irresponsável. Ver esta série de posts: 1, 2 e 3).  No entanto estamos monitorando a atividade solar (é, por outra parte, minha especialidade profissional) e muito pelo contrário o Sol mostra sinais de fadiga. Como já fizemos no passado, mostramos na figura abaixo a atividade do sol no passado recente atualizada até o mês de novembro. A curva preta representa o índice de manchas observado, a curva vermelha, a previsão a futuro.  Como pode-se ver, o índice é hoje  metade do que era durante o anterior pico da atividade.  E a tendência é seguir assim. Aliás, a atividade dos últimos 15 días foi muito esparsa, então esperamos que para o dia 21 de dezembro não haja muitas novidades.
  2. Inversão do Campo Magnético Terrestre.  Este fenômeno natural, que já aconteceu muitas vezes no passado, suscita também a preocupação dos profetas que afirmam que será um sinal mais, e que virá acompanhado por crises mundiais, sociais e econômicas. No entanto não há razão para supôr que a inversão acontecerá nos próximos dias. O processo, que talvez já começou, leva milhares de anos para se completar, o último aconteceu há quase um milhão de anos.  As escalas temporais geológicas são longas.  Mesmo se o campo se inverter dentro de pouco tempo, não é muito lógico pensar que irão acontecer desastres.  Ao final de contas já aconteceu centenas de vezes no passado e tanto a vida em geral, como o homem em particular sobreviveram. Mais informações aqui e aqui.
  3. Alinhamento Galático. Diz a profecia que o Sol e o centro galático ficarão numa linha reta um com o outro, que esse dia será o 21 de dezembro, data do solstício, e que então poderosos jatos emanados do Centro Galático atingirão a Terra.  Dizem também que esta coincidência só acontece a cada 26.000 anos por culpa da precessão dos equinócios.  Mostramos que não há qualquer  alinhamento previsto para a data, nem para os 200 anos entre 1900 e 2100. Também escrevemos, que não há nenhum jato galático que possa nos afetar.  
  4. Asteróide. Menos citado, sempre aparece a suposta existência de um asteróide em direção da Terra. A menos de uma semana, se com todos os telescópios que observam o céu em busca de asteróides assassinos aínda não foi detectado é porque deve estar por trás de Júpiter e assim apenas nos poderia fazer algum dano dentro de muitos anos. À presente, apenas dois asteróides escapam da clasificação 0 (nenhum perigo) da Escala de Torino, para 1 (risco baixo) e as datas previstas de aproximação da Terra são entre 2040 e 2057. A Tabela completa está neste link.
Se devemos nos basear nestes sinais para acreditar na proximidade de uma catástrofe,  não vamos ser convencidos. Muito próximos da data, seguimos sem ver nenhum deles.  Por esse motivo não nos cabe a menor sombra de dúvida ao dizer que o curso da história da humanidade continuará muito além do 21 de dezembro de 2012, com suas misérias e grandezas.  Também não temos dúvida que novos profetas já estão escrevendo sobre os próximos apocalipses que também nunca irão a acontecer.  

Nos propusemos desde o início de nosso trabalho, que este blog  leve uma voz otimista com a visão científica.  E assim continuaremos.

Porque nossa  Última Hora ainda não chegou.

miércoles, 5 de diciembre de 2012

Alinhamento Planetário sobre as Grandes Pirâmides Egipcias

Nas redes sociais circula uma foto que fala de um alinhamento planetário, uma estranha disposição de Saturno, Vênus e Mercúrio que, quando fotografado próximo das grandes pirâmides de Guiza, (Keops, Kefrén e Micerino, ou em seus nomes egípcios Jufu, Jafra e Menkaura) aparecem justo acima de cada uma das construções. A foto em questão tem o seguinte comentário: Alinhamento planetário sobre Guiza. Acontece unicamente a cada 2.737 anos. Abaixo a foto.
Pirâmides de Micerino, Kefrén e Keops (de esquerda para direita). Acima delas as três estrelas, supostamente Mercúrio, Vênus e Saturno numa estranha conjunção.

Obviamente que esta conjunção foi relacionada com as profecias maias (estranho que não falaram  que o ciclo é de 5128 anos, o uma Contagem Longa maia). A verdade é que a foto parece muito falsa, mesmo assim decidi  verificar a informação.  Em primeiro lugar temos que ver a orientação da foto.  O diagrama abaixo mostra a disposição das pirâmides mais famosas da antiguidade egípcia.
Diagrama das grandes pirâmides de Guiza, com os nomes acima. Fonte Wikipedia, acesso em 04/12/2012.
Comparando com a foto, o diagrama mostra que foi tomada desde o Sul, olhando em direção Leste, ou seja, direção Norte-Leste.  O segundo passo é verificar a posição relativa dos planetas.  A conjunção é real, Saturno, Vênus e Mercúrio estão muito juntos, e aínda próximos do Sol.  Justamente, por estarem tão perto do Sol, podem ser vistos unicamente antes do amanhecer, ou seja, olhando em direção Sul-Leste e não Norte-Leste.  Além do mais, a posição relativa dos planetas é muito mais vertical.  O diagrama abaixo representa o céu sobre Guiza em 5 de dezembro de 2012 as 6:34 da manhã (hora local) obtido usando o programa gratuito kstars. 

A linha verde representa o horizonte, SE indica a direção Sul Leste, o que fica debaixo não pode ser visto ainda.  Quase no centro, abaixo da linha verde, o pequeno círculo amarelo é o Sol (Sun), indicando que está por amanhecer, o céu deveria estar mais claro que na foto. Por cima do horizonte, em letras amarelas, vemos os nomes dos três planetas (Mercury, Venus, Saturn) ao lado de pontos brilhantes.  A mancha cinzenta representa a Via Láctea e vemos também as linhas ligando estrelas que representam as constelações.  Fica claro deste esquema, que a posição mostrada na suposta foto do alinhamento é completamente falsa.  Poderiamos também analisar as posições relativas das estrelas para ver a qué distância das pirámides nos deveriamos colocar para ver  a coincidência de um planeta sobre cada pirâmide, mas acredito que os elementos até aqui apresentados já mostram a falsidade da foto.

Que a suposta repetição deste estranho fenômeno (2737 anos) é pura invenção fica fora de questão. Sabendo que Saturno, o planeta mais lento dos três, tem um periodo orbital de 30 anos, podemos supor que suas conjunções com Vênus, que tem um periodo orbital de 224 dias, e Mercúrio, que orbita em torno do Sol a cada 88 dias, aconteçem a cada 30 anos aproximadamente.

A foto da conjunção, além de pouca qualidade fotográfica demonstra pouca investigação, porque não custa muito buscar uma foto das pirâmides em direção Leste olhando para o Sul e superpor os planetas na posição em que se encontram realmente.  Muito trabalho para uma questão tão efêmera.  Tão efêmera como as ideias que intenta difundir.  

É bem provável que a teoria da conjunção única continue. Por exemplo, em 12 de janeiro de 2013, depois de sobreviver ao Apocalipse veremos, como no diagrama da figura abaixo,  que Vênus, Plutão, Mercúrio, o Sol e a Lua estarão bem próximos.  Saturno estará afastado do resto (acima a direita na figura) e Marte estará entrando baixo a esquerda. Não causará muita impressão, no entanto, porque o Sol ofuscará os demais objetos.  Talvez esta conjunção seja merecedora do rótulo de única em 10.000 anos. Quem sabe venham nos contar que a última vez que foi vista  construían as pirâmides... Ou qualquer outra coisa, porque nesta época de propagação instantânea das ideias, a incontinência do enter vence qualquer reflexão.

Esquema que representa o céu as 8:34 do sábado 12 de janeiro de 2013 em Guiza olhando em direção Sul Leste.

jueves, 18 de octubre de 2012

A moderada atividade solar

A pouco mais de dois meses do dia em que profecias afirmam que as explosões solares provocarão blecautes de energia globais com duração de meses, danificando os circuitos elétricos dos satélites de comunicação e posicionamento, induzindo acidentes de aviação e acabando com o sistema bancário mundial. A nove semanas, ou mais precisamente 57 dias da data em que se aguarda o Fim dos Tempos, o maior responsável pelo caos final, nossa estrela central, o Sol, não parece estar por dentro destas ideias.  Muito pelo contrário seu comportamento é bem moderado, aquém das previsões dos físicos solares, que não eram nada alarmistas.

Gráfico da atividade solar.  Fonte: Space Weather Prediction Center
O gráfico acima mostra a evolução do ciclo solar.   No eixo das abscissas (horizontal) os números indicam  os anos.  No eixo das ordenadas (vertical) o índice de manchas: quanto maior esse número o Sol está mais ativo e provoca mais explosões, ejeções de massa, etc.  Cada pontinho preto representa a média do índice durante um mês calendário.  O último pontinho da direita é a média do mês de setembro 2012. A curva azul é uma média corrida para suavizar as variações rápidas e ver tendências em escalas temporais maiores.  A curva vermelha é a previsão feita por um grupo de estudosos do Sol em base a modelos e ao histórico da atividade nos últimos anos.  Como pode se apreciar do gráfico, a atividade presente nem atinge o depreciado nível previsto pela curva vermelha.

O sol não quer sair de sua letargia.  Acredito que teremos um verão solar muito frio.


miércoles, 22 de agosto de 2012

Apocalypse Not

Eu já disse muitas vezes que não gosto de Apocalipses. E a consequência de este meu ceticismo é que me levou a escrever este Blog. Escrevi sobre os novos Apocalipses, sobre os maias, mas também sobre aqueles originados nos âmbitos acadêmicos:  A Mudança Climática, ou o Blecaute Global e Derradeiro. 

A revista Wired  publica um interessante artigo de Matt Ridley onde expõe a sua maneira estas ideias que defendo aqui.  Para aqueles que se atrevam com o inglês, voilà o link: Apocalypse Not. Na visão de Ridley os clássicos quatro cavaleiros do Apocalipse, hoje em dia estão representados pelas substâncias químicas, as doenças, a população e os recursos naturais.  A cada um deles dedica uma seção e mostra como as piores profecias realizadas pelos mais respetados cientistas de sua época, não chegaram nunca nem sequer a comprometer a vida humana na Terra.

Apocalypse Not é também uma expressão idiomática que brinca com o título do famoso filme de Coppola, Apocalypse Now.  E o artigo de Ridley, apesar de me fazer sentir acompanhado, aumenta minha curiosidade por entender o mecanismo que dispara a obsessão por imaginar nossos próprios finais. 

Até o próximo Apocalipse.    


sábado, 11 de agosto de 2012

Atividade Solar em Julho

Figura tomada de http://www.swpc.noaa.gov/SolarCycle/
em 11/08/2012.
Como todos já savem, o ciclo solar está chegando a seu máximo. Junto con ele vieram desta vez as profecias apocalípticas: as baseadas na interpretação do calendário maia e as que fundamentam-se em estudos geomagnéticos. Ambas brigam abertamente por imaginar os cenários mais assustadores.  

O certo é que enquanto nossos profetas escrevem seus apocalipses, a Natureza encarrega-se por desmentr.  A figura mostra a situação atual da atividade solar.  Os círculos pretos unidos por traços indicam o valor médio do índice de manchas do mês, a curva azul é uma média que suaviza as variações e a curva vermelha é a previsão a futuro, os números no eixo horizontal (abscissas)  são os anos a partir de 2000. Depois do pico do mês de outubro do ano passado, a atividade diminuiu, logo aumentou um pouco mas faz vários meses que estabilizou.  A menos de um ano do máximo, o Sol segue estando muito calmado.  

A última grande tempestade solar aconteceu em março de 1989, aquele ciclo foi de forma geral muito mais intenso que o atual.  Deveriamos esperar que uma supertempestade venha a ocorrer nos próximos meses? Não parece lógico. Enquanto isso os apocalípses terão de buscar uma desculpa para explicar seu erro.

miércoles, 8 de agosto de 2012

Riscos de uma supertempestade solar (III)

No post anterior falamos das emissões solares geradas durante um evento explosivo, como uma explosão ou uma ejeção de massa coronal.  Vamos ver agora as ameaças destas emissões segundo as visões mais pesimistas.
Típica aurora Polar observada em latitudes altas.


Aurora polar avermelhada, as vezes observada em latitudes menores.
Buscando na literatura  encontramos que a origem das ideias mais catastróficas é um único autor: John Kappenman, engenheiro elétrico norte-americano, proprietario da firma Metatech Corporation, que faz consultoría e brinda assistência à linhas de transmissão elétrica em questões de interferência ambiental ou intencional. John Kappenman se dedicou nos últimos 20 anos a estudar os fatores que podem danificar ou desestabilizar a transmissão de corrente elétrica.  Em reconhecimento a seu trabalho a National Academy of Sciences, o Congresso e o governo norte-americanos o chamaram para pedir conselho.  Em vez  destes relatórios em que utiliza uma linguagem técnica e fria, vou me referir aqui a um artigo que publicou na revista IEEE Spectrum, em fevereiro de 2012.  Esta revista, embora dedicada à divulgação técnico científica, pertence à mais prestigiosa associação de engenheria elétrica do mundo, responsável também pela publicação das melhores revistas relacionadas com a transmissão de eletricidade, as telecomunicações e a computação.  Não é um tabloide lido por milhões de pessoas, pelo contrário é seguida por um pequeno grupo de profissionais com formação universitária.  Em suma, é lida por formadores de opinião e gente das mais altas hierarquias empresariais e governamentais.  Por isso mesmo me assustou a linguagem utilizada.

Eu vou a traduzir o primeiro páragrafo deste artigo:
Linguas luminosas de intensas cores vermelhas, verdes e violetas brilham e pulsam através dos céus do norte e do sul como vastas conflagrações cósmicas. Em minutos, milhões de pessoas estão tuitando, enviando mensagens de texto pelo celular e blogueando sobre a fantástica visão.  Mas, repentinamente, o céu torna-se de cor  sangue vermelho  e a fascinação dá passo ao pânico. 
 Como podemos ver o início presságia as catástrofes que anunciará depois.
Relacionado com o espetáculo celestial acontecem enormes variações do campo magnético na magnetosfera terrestre, que causam imensos fluxos de corrente elétrica na atmosfera superior sobre a maior parte do planeta.  Estas enormes correntes perturbam o campo magnético terrestre normalmente calmo, que por sua vez induzem oscilações de corrente nas redes elétricas e de comunicações  entre os continentes.  As luzes das ruas  piscam até apagar, a eletricidad desaparece. Um blecaute planetário está acontecendo deixando vastas regiões de Norte e Sulamérica, Europa, Austrália e Ásia sem energia. 
E as coisas vão piorando com o passar do tempo,  
Em poucos meses, a crise se aprofunda. Em muitos lugares a falta de comida crece vertiginosamente, a água potável passa a ser um bem precioso e os pacientes que precisam de transfusões de sange, insulina ou drogras críticas morrem enquanto aguardam.  O comércio normal pára, substituido por um mercado negro e o crime violento.  Enquanto  as fatalidades crescem por milhões, a rede social desaba.  
O qué pode justificar tamanho prólogo apocalíptico?  Temos evidências de que algo assim poderia vir acontecer?  Segundo Kappenman embora não há evidências observacionais, pode-se especular com esta catástrofe mundial. O fundamento de seus argumentos é a comparação dos efeitos criados pelas maiores tempestades magnéticas registradas nos tempos modernos.

Danos provocados aos transformadores da Companhia de eletricidade de Quebec durante o blecaute de março de 1989 (Fonte: Severe Space Weather Events, Nat. Ac. Sci., 2008)
A primeira (na verdade foram mais de uma) aconteceu entre o 28 de agosto e o 4 de setembro de 1859. Em coincidência, Richard Carrington, astrônomo aficcionado inglês, observou em 1 de setembro através de seu telescópio a primeira explosão solar. Não  se tratou apenas da maior white light flare (explosão em luz branca) jamais observada, essa semana aconteceram as maiores pertubações do campo magnético terrestre  enquanto era  observado o céu avermelhado (aurora polar, ver foto acima) até nos trópicos, e as linhas telegráficas chegaram a curtocircuitar, algumas prenderam fogo e em outros casos, tinham corrente elétrica para funcionar com as baterias desligadas. Estes fenômenos foram observados por vários dias.   Há muitas testemunhas  presenciais embora na prática temos pouca precisão sobre a extensão dos danos. Como argumento é referido o fato de que em 1859 o telégrafo era o meio de comunicação mais avançado da época, o que hoje estaria representado por comunicações satelitais e telefonia móvel.

A pregunta que se faz Kappenman e acredita ter uma resposta correta é: o qué ocasionaria hoje uma tempestade geomagnética parecida com a de 1859.  Para responder parte do caso da tempestade de março de 1989, que deixou sem luz a  provincia de Quebec.  As correntes geoinduzidas (GICs) pelas partículas que entraram na atmosfera durante a tempestade,  sobrecarregaram a rede de alta tensão, o que criou um curtocircuito que se propagou rapidamente a outras redes.  O apagão prolongou-se por 9 horas e produziu perdas milhonárias.  A maior preocupação de Kappenman é com os transformadores de ultra alta tensão (EHV em inglês) que podem queimar por culpa das GICs, a confecção dos mismos é quase artesanal e portanto sua reparação ou substituição é muito demorada.  Se em escala global muitos destes EHV queimaram começãria um problema muito sério: a falta de eletricidade em vastas regiões provocaria graves problemas de alimentação, falta de água potável, carência de transporte e riscos severos na conservação de medicamentos por falta de geladeiras.

Se Kappenman não poupa na descrição apocalíptica inicial é porque ele está convicto que centenas de transformadores poderiam sair de serviço se outro evento Carrington (como são chamados os eventos da semana de 28/8 a 2/9/1859) voltasse a ocorrer.  O fator decissivo nos prejuizos induzidos por uma tempestade magnética é a variação do campo magnético. Em março de 1989, mudou entre 400 e 500 nT/minuto (nano teslas por minuto), sendo dos mais importantes das últimas décadas. No entanto, Kappenmann mostra que  en 1921 outra tempestade geomagnética teria provocado variaciões de até 5000 nT/minuto e o evento Carrington foi aínda maior.  (Como referência, o campo magnético terrestre é em torno de 60.000 nT em média)
É este o cenário de catástrofe que melhor descreve as predições de Kapenmann? A sociedade destruida, homens caçando homens. Frio, falta de alimentos, água e medicamentos. The Road, filme de John Hillcoat, estrelado por Vigo Mortensen.

Kappenman vai ainda mais longe. Ele especula com que poderiam chegar a acontecer centenas de Fukushimas.  Como?  Para compreender temos que ver como aconteceu o meltdown do reator japonês durante o tsunami de 2011: o terremoto disparou, por prevenção, o desligamento do reator, o tsunami ultrapassou o muro de contenção e a água invadiu a sala onde encontrava-se o gerador elétrico diesel de emergência, e a energia externa cortou quando cairam os postes elétricos por culpa do tremor. Em síntese Fukushima ficou em poucas horas sem nenhum tipo de eletricidade, por esse motivo não podia-se  fazer funcionar o circuito primário de arrefecimento, e o reator estava muito quente. No decorrer das horas e dias, o material começou a fundir e houve escape radioativo.  Então, se por culpa de uma tempestade geomagnética muitos transformadores EHV ficassem fora de funcionamiento, os reatores deverão ser desligados e passarão a depender do gerador diesel para fazer funcionar a bomba do circuito de arrefecimento.  Mas a norma é que os geradores têm combútivel apenas para uma semana.  Como o caos vai tomando cada vez mais lugar na cidade, a carência de combustível levará eventualmente a que os reatores fiquem sem nenhum tipo de energia e com o reator ainda quente demais. Em poucas semanas centenas de reatores no mundo todo começariam a fundir...

Todo este Pandemonium, poderia ser evitado facilmente diz Kapenmann, a ideia é isolar nas linhas de transmissão o neutro da terra por meio de um capacitor, o que evitaria que as GICs tivessem onde descarregar.  O problema é que as terras estão para evitar curtocircuitos quando a corrente cresce descontroladamente.  Nesse caso alguma chave deveria bypassar o capacitor. Esse dispositivo, baseado num tubo de vacúo já foi desenhado pela firma Advanced Fusion Systems, sendo capaz de atuar numa fração do ciclo  elétrico (digamos que uns 10 ms) e suportar até 20.000 A de corrente.  Só é necessario fazer estas modificações em todas as linhas de alta tensão do mundo a um custo  muito menor que os danos projetados en seus catastróficos relatórios.  O artigo de Kapenmann termina com uma advertência: Se não fazemos nada, se paramos a esperar que os políticos apreciem os riscos e atúem- podemos pressenciar uma das maiores catástrofes de todos os tempos.

Como já tenho dito em outras oportunidades, não gosto dos apocalípses, qualquer que seja a origem.  Kapenmann não apresenta  evidência alguma de que este seja mais real que outros já proclamados: sua base é mostrar que tempestades geomagnéticas anteriores foram de maior intensidade que a que afetou Quebec em 1989.  Mas não oferece relação empírica ou teórica entre a intensidade das correntes induzidas a partir das variaçõe do campo magnético.  Também não fica clara a distribuição destas correntes sobre a superfície terrestre, nem o fluxo necessário para queimar um transformador EHV. Desta forma sua conclusão apocalíptica é, no melhor dos casos, especulativa.  

Por enquanto tomei un articulo de divulgação. Em outros posts vou analisar os trabalhos científicos de Kapenmann, no que diz respeito a suas predições catastróficas.

miércoles, 25 de julio de 2012

Riscos de uma Supertesmpestade Solar (II)

Para poder avançar nesta questão devemos primeiro falar dos diferentes tipos de emissões que produze o Sol. Podemos resumi-las em três:
  1. Luz, que em sua forma mais geral chamamos ondas eletromagnéticas para incluir desde rádio-frequências, infra-vermelho, luz propriamente, ultra violeta e raios X.  As rádio-frequências, o infra-vermelho a a luz são capazes en maior ou menor medida de atravessar a atmosfera terrestre e chegar até a superfície, mas como são radiações não ionizantes, não representam nenhum perigo.  Já os raios-X e os ultra-violetas, perigosos para a saude, são quase completamente absorvidos na atmosfera.  Seus efeitos  só são sentidos nas camadas mais altas  ou no espaço exterior. Dada sua velocidade, são as primeiras evidência que recebemos de qualquer evento solar.
  2. Partículas carregadas. Pode se tratar de elétrons, prótons e néutrons, ou também de íons. Também são chamadas de raios cósmicos solares ou em inglês, Solar Energetic Particles (SEP). Estas partículas têm uma altíssima velocidade, próxima à da luz.  Os raios cósmicos não são capazes em geral de chegar até a superfície terrestre embora podem ser detectados de forma indireta pelos efeitos que provocam.  Como têm velocidades próxima à da luz, chegam uns minutos após às ondas.
  3. Ejeções de massa coronal.  Conformadas por uma grande quantidade de matéria (trilhões de kg) da atmosfera solar, transportam também  campo magnético. Sua velocidade de deslocamento é muito menor, entre 1.000 e 3.000 km/s. A massa solar é muito tênue e incapaz de atravessar a atmosfera terrestre, no entanto seu campo magnético  interage com o terrestre provocando efeitos visíveis, como as chamadas auroras polares.  Demoram em arribar à Terra entre 1 e 3 dias aproximadamente.
Durante as chamadas tempestades solares, uma ou  até as três formas de emissão podem estar presentes.    A discusão sobre seus efeitos é o miolo destes artigos. Em princípio podemos resumi-los da seguinte maneira: 1) e 2) afetam só os satélites danificando circuitos eletrônicos, fazendo-lhes perder sua orientação, gerando distúrbios que inibem a conexão com a base na Terra, colocando em risco a saude dos astronautas. 

As ejeções de massa têm um efeito indireto: a interação do campo magnético terrestre com o da ejeção pode provocar o ingresso na baixa atmosfera terrestre de uma gran quantidade de partículas. No vídeo acima pode-se ver uma animação de uma ejeção preparada pela NASA, desde que sai do Sol até que chega na Terra. Perto da Terra, os campos magnéticos entram em contato, as linhas sofrem uma reconfiguração e partículas carregadas que se encontram no espaço saõ aceleradas e entram pelos pôlos, onde o campo magnético é de maior intensidade.   São estas partículas as responsáveis de criar as auroras polares.  Também podem induzir correntes nas linhas de alta tensão sobrecarregando-as. Na visão de John Kapenmann, um engenheiro elétrico norte-americano e dono d euma firma de consultoria sobre segurança em redes de transmissão, este é o maior perigo que enfrentamos caso una supertempestade solar venha acontecer.  

É sobre este tema que vamos falar no próximo post.