sábado, 26 de mayo de 2012

A mais antiga tabela astronômica maia

As ruinas de Xultun, Guatemala,  foram descobertas em 1915, e embora começaram a ser estudadas arqueologicamente em 1920, ficaram abandonadas à depredação dos caçaadores de tesouros.  Foi por graça destes piratas que em 2010 decobriu-se a entrada a uma  abóbada rica em paredes ornamentadas com pinturas.  Umas semanas atrás os resultados preliminares da pesquisa apareceram publicados na revista Science: Ancient Maya Astronomical Tables from Xultun, Guatemala, de W. Saturno, D. Stuart, A. Aveni y F.Rossi (Science 336, 714, 2012). A abobada é datada  no período clássico maia. Em uma de suas paredes (a leste) podem ser vistos números maias, no formato de pontos e linhas. Apesar que o tempo apagou alguns hieróglifos, o grupo de arqueólogos, entre os quais se encontra Anthony Aveni, célebre investigador da cultura astronômica maia e autor do livro Observadores del cielo en el México antiguo (Ed. Fondo de Cultura Económico), acredita ser posível determinar sem muito erro algumas sequências formadas. Uma das conclusões do grupo de autores é que os números representam intervalos de dias, relacionados com lunações, de uma forma que lembra o Códice de Dresde escrito durante o período pos-clássico (pelo menos 500 anos depois destas pinturas). Em outra parede há quatro colunas de 5 números de pontos e linhas escritos verticalmente, cada coluna posui um tzol'kin de cabeçalho, embora estes não foram descifrados.  No entanto cada um dos números distribuidos verticamente  são legíveis e parecem formar datas da Contagem Longa. Eles são:

                          Maya                 Dias                    Anos
                      8.6.1.9.0     1.195.740     3273,8
           2.7.9.0.0       341.640      935,4
          17.0.1.3.0     2.448.420     6703,5
          12.5.3.3.0     1.765.140     4832,8   

Na primeira coluna da tabela aparecem  os números em sistema maia.  Lembramos que a Contagem Longa  consistia em contar os dias, utilizando uma base (quase) vigesimal (20) que, por uma razão desconhecida ainda, terminava no número 13.0.0.0.0 também chamado 13 bak'tuns e que, segundo alguns arqueólogos, vai acontecer no próximo 21 de dezembro de 2012.  A segunda coluna transforma o número maia a nosso sistema decimal mostrando o intervalo em dias.  E, por último, considerando nosso calendário gregoriano, a quarta coluna mostra o intervalo em anos. Como pode ser apreciado, são intervalos muito longos, de milhares de anos.  Os investigadores acreditam que não se trata de datas, mas de intervalos, periodos que deveriam ter relação com outros períodos.  No entanto, não foi encontrada relação alguma entre estes números e os pintados em outras paredes, e tampouco existem conexões claras com ciclos astronômicos (de Vênus e a Lua por exemplo) ou calendáricos  (o Ciclo do Calendário) conhecidos dos maias. A conclusão do artigo é que por sua semelhança com tabelas escritas no Códice de Drede, única evidência escrita dos conhecimentos astronômicos maias, estes se remontaríam a períodos anteriores ao pos-clássico.

Chama a atenção qua o terceiro algarismo corresponde a 17 bak'tuns, um número que ultrapassa a duração de uma Contagem Longa  em 570.420 dias ou 1578 anos (no Códice de Dresde também há números parecidos).  Se a Contagem Longa representa um ciclo do Mundo, um voltar a começar, qual é o sentido de um intervalo maior?  Poderiamos argumentar  que os maias não pensavam que o que aconteça no fim do calendário, será tão grave como para modificar as órbitas de Vênus, Mercúrio ou a Lua, e que seguirá havendo habitantes na Terra para contemplar as noites estreladas.

Maiormente, este descobrimento demonstra nossa ignorância  sobre o Calendário Maia e os conhecimentos astronômicos deste povo, que, e na minha humilde impressão, estão sobrevalorados. E reforça minha opinião que as profecias nada mais são que interpretações incoerentes de nossa sociedade.

lunes, 21 de mayo de 2012

O Sol de abril

A atividade solar durante o mês de abril não trouxe grandes surpresas, o índice de manchas diminuiu um pouco e isto resultou também em poucos eventos explosivos.  A figura abaixo, gerada pelo National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) dos EUA é um reflexo disto.  Depois de um leve incremento durante o mês de março (anteúltimo ponto preto do gráfico), o índice médio de abril cai para um valor em torno de 55 (último ponto da curva preta). Como sempre, a curva azul representa uma media corrida da atividade pasade e a curva vermelha é a previsão para os próximos anos, com máximo para maio de 2013.

Como cantava The Police nos '80: There's a little black spot on the sun today. It's the same old thing as yesterday.*


Figura gerada pela NOAA e acessa em 21/05/2012. Ver  seguinte link
* Há uma pequena mancha no Sol hoje, é a mesma de ontem.

miércoles, 9 de mayo de 2012

Observação do trânsito de Vênus a olho nu

Dentro de menos de um mês teremos o último trânsito de Vênus deste século XXI. Sendo um fenômeno relativamente infrequente está despertando bastante atenção. Infelizmente no hemisfério Sul de América não poderemos observá-lo.  No entanto muitos instrumentos de todo o mundo, incluso em satélites, e a maioria dos astrônomos amadores que tenham a oportunidade, farão observações do fenômeno. Tanto interesse chegou  a Internet, onde já vi avisos de venda de óculos que permitem observar "eclipses e trânsitos de Vênus". Se trata de "bloqueadores", filtros que inibem grande parte da luz solar, permitindo olhar diretamente o disco sem sofrer danos.  Eu, por exemplo, tenho uma placa fotográfica negativa, completamente preta e que me deixa olhar o Sol sem perigo.  É bom lembrar, no entanto, que a observação direta do Sol pode danificar permanentemente a visão. Cuidado!!  Este método não conta com nenhum tipo de ampliação de imágem.  Observar eclipses solares resulta óbvio, mas, eu pergunto  se o trânsito de Vênus pode também ser observado a olho nu, sem ajuda de  telescópio.  Como seria? 

O Sol tem un diâmetro de 1.400.000 km e se encontra a uma distância de 150.000.000 km aproximadamente.  Dividendo o primeiro número pelo segundo obtemos o ângulo subtendido pelo disco solar para um observador terrestre sem instrumentos:

                      a = 140.000 / 150.000.000 =  0,0093 radianos

O que significa isto?  A uma distância de meio metro (comprimento de um braço) o disco solar é aparentemente tão grande como um círculo de um diâmetro de

                      d =  0,0093 x 500 mm = 4,7 mm !!

Podem comprova-lo usando a Lua cheia, cujo tamanho aparente não é muito diferente ao do Sol.  Tomem uma régua transparente, segurem-na com uma mão e extendam o braço reto, em direção para a Lua. Confiram na régua que o tamanho é um pouco menor a 5 mm.

Se o Sol tem esse tamanho, qual será o de  Vênus?  Quando o vemos de noite em sua versão de Luzeiro do entardecer, Vênus é como qualquer outra estrela, é seu brilho que se destaca no fundo escuro.  Mas quando fique acima do disco solar, teremos que percibir uma pequena sombra escura acima de um círculo extremamente brilhante.  Vênus tem um tamanho aparente máximo de

                          av =  1 minuto = 0,000276 radianos

ou seja que à mesma distância do braço (meio metro)

                          dv =   0,000276 x 500 mm = 0,138 mm = 138 microns

Vênus fica do tamanho de um décimo de milímetro. O olho humano tem uma acuidade nominal de 1 minuto de arco (visão 20/20).  Ou seja que é capaz de ver separadas duas linhas paralelas uma a um 1 minuto de arco da outra. Sendo assim, o tamanho de Vênus fica justo no limite,  porque  a maioria das pessoas tem uma acuidade menor que, por outra parte, depende muito das condições de iluminação e da forma do objeto. Lembrem que queremos distinguir um pontinho escuro sobre um fundo intensamente brilhante. Podem fazer um teste usando a foto abaixo (obtida do site de Jeff Balls). Meçam com uma régua o tamanho do Sol na tela do computador (no meu caso deu 11 mm). Calculem agora

                                                distância = (Diâmetro Sol) / 0,0093

Minha conta deu
                                               distância = 11/0,0093=1.182 mm = 1,18 m

Fiquem a essa distância da tela e olhem  para a foto do Sol.  Tentem distinguir o pequeno ponto preto quase na borda direita, um pouco embaixo do diâmetro central: aqui têm a imágem original como referência.  Esse ponto é Vênus fotografado com um telescópio de 600 mm de distância focal durante seu último trânsito em 2004. Eu, particularmente, apesar de saber o lugar preciso onde se encontra,  a 1,2 m de distância da foto, não o enxergo. E vocês?

Copyright © 2012, Jeff Ball. All rights reserved.
A pergunta é relevante e diz respeito as profecias de 2012.  Comentamos que alguns arquélogos acreditam que os maias poderiam ter observado trânsitos de Vênus. À luz dos cálculos anteriores e do meu teste, me parece muito difícil.  Seria interessante saber se na história há relatos de observações de trânsitos de Vênus sem ajuda de telescópios.  Até onde eu busquei, não achei.  Por exemplo, aqui, as observações começam depois de 1609, ano da introdução do telescópio na astronomia. 

lunes, 9 de abril de 2012

Atividade Solar em março: uma atualização

A Administraçaõ Nacional do Oceâno e a Atmosfera (por sua sigla em inglês NOAA) do governo norte-americano acaba de publicar os dados da atividade solar referente ao mês de março e atualizou a curva do ciclo solar.  Num post anterior já falamos do pico  de atividade que chamou a atenção da mídia de todo o mundo pela quantidade de explosões solares e ejeções de massa.  No entanto e apesar de tanto ruido, poucas foram as nozes: a atividade em geral manteve-se bastante mais abaixo que a registrada no mês de novembro. No entanto, ela  reverteu a tendência para abaixo respeito dos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.  Por enquanto, o començo do mês de abril mostra-se muito tranquilo com poucas manchas e eventos de categoria baixa.  
Ciclo solar. Os pequenos círculos pretos representam a média mensal do Índice de Manchas. A curva azul é uma média corrida. A curva vermelha é a projeção para o futuro.

sábado, 24 de marzo de 2012

A atividade solar de março de 2012

Nas últimas semanas fomos invadidos por imagens e reportagens falando sobre a atividade solar.  Somente no CRAAM, onde eu trabalho, vieram duas  equipes da Globo e uma da TV Cultura para fazer entrevistas, além do portal do MSN Brasil e ainda houve contatos telefônicos com outros jornalistas que se comunicaram para obter precisões: está aumentando a atividade solar?  

Pois é, a atividade solar deu um salto: desde os primeiros dias de março o Sol se mostrou bem ativo com muitas explosões e ejeções de massa com efeitos sobre a Terra.  Tudo isto agitou os fantasmas das profecias de 2012, daí o interesse redobrado da mídia.  Mas, será que há algúm motivo de preocupação?  

Muitas vezes já falamos sobre o Ciclo Solar, mas é bom voltar sobre ele.  O Sol apresenta dois comportamentos muito diferentes: um inverno calmo e um verão ativo, entre ambas as estações solares se passam em torno de 5 anos.  Estamos agora no verão solar, embora ainda não chegamos no ápice.  Por isso, manchetes de jornais dizendo, "foi registrada a maior explosão solar dos últimos 5 anos" é semelhante a dizer um 20 janeiro, por exemplo, que foi registrado o recorde de temperatura dos últimos 6 meses.  A comparação correta é com os verões anteriores. E para isso, no caso solar,  devemos voltar 11 anos aproximadamente.  É isso o que eu fiz.  Na figura abaixo apresento o fluxo em raios-X mole observado pelo satélite da séries GOES durante o periodo 3 a 23 de março deste ano.  O fluxo em raios-X é um atividômetro: um medidor da atividade solar, quanto mais intenso o fluxo, mais ativo o Sol, maior número de explosões e ejeções de massa, maior a chance de efeitos na Terra.  As linhas horizontais representam a classificação da emissão em raios-X: A, B, C, M  e X. Cada banda de energia é 10 vezes maior que a anterior. Os eventos X são os mais importantes os M são médios e embaixo estão os eventos pequenos. Duas vezes no periodo da figura tivemos fluxo X, e uma dezena o fluxo foi M.  O valor mínimo do fluxo (a base) sempre foi maior do que B.  


Comparemos a figura acima com o verão de 2003 durante o periodo de 15 de outubro a 6 de novembro: 12 eventos X, incontáveis eventos M, a partir de 22 de outubro o fluxo era sempre mais intenso que C. Fica bastante claro que, embora ainda falta para o fim da estação ativa,  o verão de 2000 - 2003 foi bastante mais quente que o atual.  


Só basta ver a figura abaixo para comprová-lo. Ela representa a evolução da atividade solar medida por meio do Índice de Manchas.  Cada ponto é a média mensal. Em outubro do ano passado houve também uma agitação intensa no Sol, mas a atividade como um todo decaiu abruptamente nos seguintes meses. O último ponto corresponde a fevereiro passado.  A curva vermelha representa a progressão esperada do ciclo. Até agora a previsão parece estar sendo cumprida muito bem.



Conclusão: se algo tem de particular este verão solar, é que ele está bastante frio.

domingo, 18 de marzo de 2012

Observações maias de trânsitos de Vênus

Um leitor anônimo deste blog em espanhol me alertou por meio de um comentário no post El tránsito de Venus del 6 de junio de 2012, que o professor Jesús Galindo Trejo do Instituto de Astronomía da Universidad Nacional Autónoma de México, depois de analisar afrescos de um templo da cidade de Mayapán especula  que os maias observaram trânsitos de Vênus. Este fato poderia abrir as portas para a interpretação dos profetas de 2012 de que o calendário maia da Contagem Longa, está sincronisado para coincidir seu final con um trânsito de Vênus que acontecerá em 6 de junho próximo.

Não foi difícil encontrar o trabalho de Trejo publicado no Número XXIX da revista Estudios de Cultura Maya: Un análisis arqueoastronómico del edificio Q152 de Mayapán. Vou resumir os aspectos que me interessan aqui.
Prédio Q152, também chamado de Observatório.
Mayapán, Mérida (México)

A cidade de Mayapán, última grande orbe maia, pertence ao período posclássico (aqui uma breve descrição da história maia precolombiana). Teve seu apogéu entre 1200 e 1450 e um declínio dramático, produto de revoltas populares apoiadas por grupos armados provenientes de México central. Conta com importantes edificações, entre elas um templo circular que recebeu o arqueológico nome de Q152 (as vezes referido como o observatório) e uma pirámide chamada o castelo. Recentemente num pequeno prédio junto ao castelo foram achados e restaurados uns afrescos que são iluminados pelo sol en dois dias precisos do ano. Uma das imagens representa o sol amarelo com grandes raios, escoltado por dois personagens com umas espécies de lanças; e dentro do disco solar há um personagem ricamente ataviado em aparente descenso.  Segundo Galindo Trejo, os dias em que o sol ilumina o afresco serviriam como marcadores que permitem fazer uma aritmética simples para contabilizar o período sinódico de Vênus, de 584 dias, tempo que demora em dar uma volta em torno ao Sol observado desde a Terra.  Tamanha importância dada ao ano de Vênus, leva ao autor a reflexionar se o personagem dentro do disco solar não se trataria de uma representação dos trânsitos do planeta, tornando o afresco numa evidência do conhecimento astronômico maia.
Pirámide de Mayapán (o castelo)

Observar tránsitos de Vênus é complicado porque  projetado sobre o disco solar, o planeta é 30 vezes menor.   No entanto é possível se se atenua de alguma forma a intensa luz solar.  Uma condição natural é com o Sol próximo do horizonte ocultado por um véu de nuvens ou por fumaça.  Os maias estavam  numa posição geográfica privilegiada: dos 40 trânsitos de Vênus que aconteceram entre o ano 2000 AC e 1500 DC (conquista espanhola) eu calculei que poderiam ter observado 36 (Usei a seguinte tabela criada pela NASA, e as fórmulas daqui). Os trânsitos de Vênus são fenômenos bastante prolongados, que duram aproximadamente 7 horas e que ocorrem com pouca dispersão calendárica: entre o 19 e 23 de maio, e entre o 20 e 23 de novembro quando é considerado o lapso correspondente à antigüidade maia. Nem todo ano tem tránsito de Vênus, no entanto. As regras que os regem  não são simples e exigem séculos de observações ou um conhecimento bastante avançado da astronomia planetária.

Tamanhos relativos do disco solar (círculo amarelo) e Vênus (círculo azul claro). A diferença de tamanho e o intenso brilho solar dificultam a observação sem instrumentos de um trânsito de Vênus.

Em suma, talvez os maias observaram tránsitos de Vênus. Supor que chegaram a prevê-los, como algumas profecias de 2012 afirmam, seria uma ousadia sem qualquer sustento científico.

miércoles, 29 de febrero de 2012

2012 no Discovery Channel: a perda da ética do jornalismo científico

O Discovery Channel preparou um documentário especialmente dedicado às profecias de 2012 que foi ao ar no mês de fevereiro desse ano.  Com o sugestivo título de Apocalypse 2012 o programa entrevistou  a John Rennie, editor da revista Scientific American, e  Ian O'Neil, físico solar pela Universidade de Gales, produtor do site Discovery News e criador do site Astroengine. Junto com eles estavam Edwin Barhnhardt do Maya Exploration Center, e Holly Gilbert e C. Alex Young, ambos físicos solares do Goddard Space Flight Center de NASA. Com semelhante elenco tudo indicava que o programa não daria trégua às críticas céticas contra as profecias de 2012.

E no entanto, as últimas frases do documentário foram : Mas os especialistas podem estar errados e em 22 de dezembro de 2012 os vivos podem chegar a invejar os mortos.  Se o mundo acabar não haverá como negar uma simples verdade: nós fomos avisados. Enquanto a voz do locutor lia essa profecia apocalíptica, imagens  mostravam um mundo que se destruia por causa de terremotos gigantescos, tsunamis e demais pragas de fim de mundo numa dantesca dança completamente irreal produto da imaginação de roteiristas de Hollywood, talvez tiradas do filme 2012.   Não resulta um tanto estranho esta mensagem final num canal que diz que seu alvo é a família, a informação a educação e o entretenimento?
 
Faltou mencionar que no grupo de convidados estava Lawrence Joseph: jornalista e autor do livro Apocalypse 2012, uma visão supostamente científica de como o mundo poderia acabar esse ano, que já leva vendidas mais de 100.000 cópias segundo o seu próprio site.  Talvez é aqui onde começamos a compreender a moral do documentário (as letras itálicas indicam minha visão crítica de que realmente se tratou de um documentário) do Discovery Channel. Não é divulgação científica, mas um show mediático onde a ciência é um ator coadjuvante: ela não é o centro mas sem ela não teria espetáculo.  Talvez pior ainda, foi um golpe de marketing para relançar as vendas do livro de Lawrence.

Divulgação científica é ciência também.  Ela é até mais difícil de fazer porque deve tentar ser rigorosa na explicação, sem utilizar recursos lingüisticos ou matemáticos  sofísticados.  Isso coloca qualquer cientista numa posição difícil porque a maior parte do tempo ele passa dentro de um ambiente pleno de significados. Fora dele, deve substitui-lo com outras descrições mais generalizadas.  Não se trata de usar palavras simples ou alegorias frouxas, mas de buscar alternativas à explicação.  Não é fácil, e muito poucos conseguem. Em qualquer caso a divulgação científica tenta colocar no público leigo as ideias da ciência, mostrando os debates, mas tentando ser equilibrado enquanto ao que a maioria aceita como correto.

O Discovery Channel não parece se importar muito com essa visão. O entretenimento, custe o que custar vale mais do que o rigor, o efeito sobrepõe-se à precisão.  Da mesma forma Lawrence Joseph, cujo livro não conhecia antes de assistir o programa, parece brincar com as mesmas estratégias para conseguir maiores vendas.  Será que eles não se precoupam com as centenas de milhares de pessoas que estão angustiadas pela próxima chegada de um Apocalípse?  Pessoas que abandonam suas casas para buscar refúgio em sítios considerados seguros?  Quantos conflitos pessoais e sociais está criando esta histeria sem qualquer base científica?

Os dois astrofísicos do Goddard, são os únicos que não deixaram dúvidas quanto ao seu convencimento de que não haverá Apocalípse, embora a carinha ingênua da Holly afirmando "eu acho que não acontecerá nada em 21 de dezembro de 2012", ou a frase de Alex Young: "não há nada de especial em 2012", foram muito pouco para contrarrestrar uma exposição de uma hora de palavras de efeito junto com grotescas imágens de Holocaustos Universais que, no melhor dos casos apresentam situações  de baixíssima probabilidade.   Enquanto que a participação do John Rennie da Scientific American também me deixou uma sensação agridoce, as vezes parecia estar apoiando as malucas especulações que pretendiam passar por verdades científicas.  Talvez não mediu as palavras e se deixou levar pela excitação que produzem os holofotes.  

Eu vou resumir os cenários apocalípticos descritos no programa.
  1. Alinhamento Galático.  Sobre este tema já escrevi com muito detalhe no meu livro sobre as profecias. Aqui está o link. Sintetizando, não haverá alinhamento nenhum e mesmo que ele viesse a ocorrer, não haverá qualquer jato de energia em nossa direção. (Na versão do Discovery, o problema parece ser o contrário, o Sol eclipsará a energia vital que vem do centro galático...)
  2. Explosão solar ou Ejeção de Massa Coronal provocará um blecaute elétrico geral.  Sobre o tema também me estendi no meu livro (vide aqui). Também não acredito no tamaho do desastre, mesmo porque a atividade solar está muito mais fraca que há dez anos.  E, como diz a Holly Gilbert, "se em 2003 enfretamos todos esses problemas muito bem por que agora não?" Eu vou voltar sobre a questão num próximo blog, porque de fato é a única das especulações que conta com algum um suporte científico
  3. Ejeção de Massa Coronal dispara megaterremoto.  Também já abordamos a questão neste blog: aqui e aqui estão os links. A verdade é que alguns pesquisadores (muito poucos) acham que em periodos de maior atividade solar há um aumento, não muito expressivo da atividade telúrica terrestre.  Em outras palavras, podem acontecer mais terremotos (dois ou três a mais por ano).  Se isto for verdade (coisa que ainda não está comprovada) então já passamos por periodos muito mais perigosos, como na década de 1950 quando a atividade solar foi três a quatro vezes maior que a atual.  Devemos nos preocupar então?  
  4. Deslocamento dos Pôlos. Dos megaterremotos, Lawrence Joseph e o Discovery Channel passam a descrever uma teoria geofísica escrita por Charles Hapgood, um mestre em história medieval, que também prestou serviços na CIA norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, na época chamada de Office of Strategic Services.  Hapgood escreveu um livro cujo maior mérito parece ser o de ter prólogo de Einstein, depois publicou outros mais.  Na visão deste historiador a Terra poderia passar por cataclismos severos que deslocam o eixo em 30 graus ou mais produzindo uma reorganização dos continentes com graves consequências para a vida.  Ora, pesquisando nos meios científicos não achei referência nenhuma às teorias do Hapgood. Ou seja, ela é uma especulação feita por um historiador em base a interpretação de antigos mapas. Interpretação contestada até pelos próprios historiadores. Vamos voltar sobre a teoria de Hapgood num próximo post porque me lembra à de Immanuel Velikovsky sobre os mundos em colisão. (O Hapgood chegou a afirmar que há evindências de seres humanos junto com dinossauros)
  5. Inversão magnética. Também ja escrevemos bastante sobre esta questão (vide aqui).  O Ian O'Neil faz uma descrição aterradora do que poderia acontecer se o campo magnético desaparecer: o aumento da radiação ultra-violeta provocaria o aumento dos compostos em base a nitrogênio e oxigênio (chamados NOx) na atmosfera que levaria à desaparição do plancton marinho, e com ele à quebra de toda a cadeia alimentar com vastas consequências para a humanidade.  Preciso checar este cenário, mas a verdade é que se toda vez que o campo magnético inverter (e ele já inverteu centenas de vezes no passado) ocorre este colapso não se explica como não há correlação com as extinções em massa de especies. O Lawrence Joseph fala do buraco do campo magnético na região do Atlântico Sul, bem conhecida pelos brasileiros por ficar seu centro perto da ilha de Santa Catarina; e ele ainda assusta falando  de um outro buraco detectado uns anos atrás (embora passageiro).  Ora, a Anomalia existe desde muito tempo atrás (100 anos?) e nossa teconologia já contornou o problema.  Por que deveriamos nos preocupar agora?
  6. Colisão com asteroide.  Essa foi descartada rapidamente. Não existe asteroide grande o suficiente que esteja se aproximando da Terra para colidir em 2012. Disto temos certeza porque existem programas de monitoramento espacial.  Alguma pedrinha poderia até passar despercibida, mas não uma capaz de acabar com a civilização terrestre. 
Para ilustrar o programa, grostestas animações de computador mostravam ininterruptamente a devastação produzida por terremotos, tsunamis, blecautes de energia, invernos prolongados, cometas, etc, enquanto tocava no fundo uma música marcial.  No fim, com a exceção de Lawrence Joseph, de cujo convencimento sobre o Apocalípse depende o futuro de vendas de seu livro, o resto do painel foi cético quanto a possibilidade do fim do mundo.  

Mas o Discovery reservou os segundos finais para a frase de maior efeito, como relatado acima.  Na minha visão o Discovery Channel fez um papelão com este programa, desacreditou-se a si próprio, e mostrou que seu principal, senão único objetivo, é o lucro.